quinta-feira, 22 de abril de 2021

O cristão degradê e a sã doutrina

Cristãos degradê

O espírito do tempo é um dos males que mais tem penetrado no meio da comunidade cristã, produzindo estragos de tal ordem que identificarmo-nos como cristãos é uma tarefa difícil, porque tal identidade passou a ter vários matizes e variadas flexibilizações. Diria que nem com mosaico se parece. Está mais para pintura degradê, que na parte de cima começa com uma cor, cujos tons vão se alterando de forma sutil, até chegar na parte de baixo com outra cor completamente distinta da cor do início. É como dizer que temos cristãos de todos os tipos para todos os gostos, sem que haja entre eles uma distinção definida de cores. São cristãos degradê. Essa é a frase que mais se ouve em seus lábios: "o que importa é amor!"

Sem me prender a outros, há pelo menos dois exemplos que identificam o cristão degradê. Ele aparece na fala de certo pastor, que defendeu uma espécie de santidade interior sem considerar o lugar onde a pessoa está ou o que ela esteja fazendo. É uma forma sutil de encaixar na mensagem evangélica o universalismo. "Vivam do modo que quiserem. Ao final todos serão salvos. O que importa é o coração". O segundo exemplo, também reverberado pelo mesmo pastor e por muitos outros que seguem na mesma trilha, é o de que não existe doutrina correta, perfeita, sã, capaz de expressar a verdade da Escritura. É como se nesse cipoal doutrinário pós-moderno cada um possa agarrar-se ao seu cipó, chegando aos mesmos resultados diante de Deus.

O problema de ambos os pressupostos é que descaracterizam a fé bíblica e a transformam num caldo sem sabor definido, mais para insosso, cuja aparência não permite sequer definir a natureza do conteúdo: se é goiaba, maçã, pera, laranja, uva ou qualquer outra fruta comestível. Mais parece uma mistura de ervas daninhas com pitadas de algum fruto só para tentar enganar quem precisa nutrir-se. Noutra ponta, é dizer ao ouvinte ou leitor que ele é o senhor da interpretação, como advoga a "teologia da experiência", tomando a Escritura como um livro onde determina a seu bel-prazer o certo ou errado, ou, sendo mais assertivo, o certo ou errado dependem da perspectiva de cada um. Sob esse ponto de vista, reunirmo-nos como igreja é uma desnecessidade. Total perda de tempo. Cada um estabelece o próprio caminho. Todos "dão na venda". É a deixa em que muitos "desigrejados" sustentam o seu discurso.

Como os nossos pressupostos baseiam-se na Escritura, é nela que devemos buscar a resposta para os dois exemplos usados neste ensaio. Mas não com a perspectiva do leitor como sujeito e, sim, buscando entender, como ponto de partida, o significado pretendido pelo autor, evitando saltos carpados, exegeses complexas, longos e muitas vezes abstratos conceitos, mas desvendando da forma mais simples possível, sob a iluminação do Espírito Santo, o que Deus nos revelou como padrão, tanto para a igreja como para cada cristão. A não ser assim, tornar-nos-emos presas fáceis do cipoal doutrinário, onde não se consegue distinguir sequer por onde os cipós estão subindo e aonde chegarão.

A primeira premissa mostra-se logo inepta por uma razão essencial: não há como dissociar a santidade interior das evidências externas que ela manifesta. É uma dicotomia ou divisão inexistente. A própria natureza nos ensina que a árvore má produz maus frutos e a árvore boa produz bons frutos. A substância das ações revela a essência que as produz. Jesus mesmo corrobora o conceito ao confrontar fariseus e doutores da lei, afirmando que "não se colhem figos de espinheiros, nem dos abrolhos se vindimam uvas", Lucas 6.44,45. A santidade bíblica é completa, plena, transparecendo em todas as áreas da vida cristã. É bem verdade que o processo começa de dentro para fora, nunca ao contrário, mas compreende espírito, alma e corpo, nessa ordem, 1 Tessalonicenses 5.23.

Não há qualquer vislumbre na Escritura que subentenda a hipótese de o cristão viver uma vida de piedade e ter, ao mesmo tempo, uma vida mundana, dissoluta, com entrega voluntária ao pecado. São possibilidades incompatíveis. Como se costuma dizer nas redes sociais, os dois não dá. Ou se vive a santidade ou se vive a vida mundana.Tentar conciliar as duas posições é mais do que vulgarizar a graça. É renegá-la. É fazer dela um instrumento estéril. É presumir que a graça deleita-se com o pecado, quando, ao contrário, a mesma graça que salva instrumentaliza a nossa santificação. Ela nos conduz às "boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas", Efésios 2.10.

Tal proposição não implica afirmar a nossa impecabilidade, porque, embora estejamos crucificados com Cristo e tenhamos morrido para o mundo (Gálatas 2.20), esse não é um processo estático, mas contínuo e crescente à medida que mortificamos diariamente a nossa carne, cuja natureza - a Bíblia diz - é propensa ao pecado. A ideia da impecabilidade, isto é, de que não mais pecamos, é uma interpretação forçada e extrema de 1 João 3.6 como traduzido na Almeida Revista e Corrigida: "Qualquer que permanece nele não peca; qualquer que peca não o viu nem o conheceu". 

Primeiro, porque a mensagem no original significa que o cristão não vive deliberadamente pecando, não é dado ao pecado, não faz dele uma prática habitual. Outras traduções e versões traduziram com maior clareza o texto. Segundo, se o verso defendesse a impecabilidade, estaria em contradição com o próprio contexto e outras passagens que aludem à probabilidade de pecar, reforçando, inclusive, a luta permanente - sempre a partir da graça santificadora do Espírito - contra as paixões da carne. Cito apenas um verso do próprio João que resume de forma magistral tudo o que a Palavra de Deus diz a respeito: "Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo", 1 João 2.1 (grifo meu).

Esta é a verdade, em poucas palavras: a santidade é inconciliável com a vida deliberadamente pecaminosa. O cristão não a experimenta, se habitualmente, como prática cotidiana, entrega-se a uma vida desregrada, lança-se na lama podre do pecado, joga-se no precipício das paixões infames, abebera-se das fontes de águas turvas, sem que isso lhe cause qualquer sentimento de repulsa. Por outro lado, quem experimenta a santidade, jamais desejará correr em busca do pecado, as suas paixões serão contidas pela graça, mas se vir a pecar, o seu coração sentirá a tristeza segundo Deus, que o levará ao sincero arrependimento, não desejando jamais repetir as mesmas práticas, 2 Coríntios 7.10.

Com isso, chegamos à segunda premissa: a de que não há doutrina correta. Cada um que suba no seu cipó. Mas a própria exposição em síntese que acabei de fazer sobre a santidade bíblica mostra que a afirmação não é só frágil. É errada e inconsistente com a Escritura. Diria mais: torna a Palavra de Deus submissa ao pensamento humano e dá voz a toda sorte de achismos. A Reforma resgatou o livre exame, já que até então o povo não tinha acesso à Bíblia. Era restrita ao sistema sacerdotal romano. Mas em nenhum momento afirmou que cada um a interprete como quiser.

Enquanto Lutero esteve escondido no castelo de Wartburg, traduziu o Novo Testamento para o alemão e em 1522 foi publicada a primeira edição da Bíblia por ele traduzida. Embora já houvesse outras traduções, foi a que mais teve repercussão à época. O povo começou a desfrutar da oportunidade de examinar de per si a Escritura. Mas livre exame é diferente de livre interpretação. Ler a Bíblia com os pensamentos já pré-condicionados é usá-la apenas como pretexto. É preciso lê-la com o coração aberto, usando as ferramentas certas, para que o Espirito Santo nos induza a compreender e aceitar as verdades que ele revela e não prevaleçam as nossas deduções.

A leitura dos salmos, por exemplo, permite-nos perceber que os salmistas apontam fartamente a Palavra de Deus como reta, pura, santa, verdadeira, engrandecida, iluminadora, antídoto contra o pecado e desejável, entre tantas outras definições que asseguram a sua singularidade e autoridade. O profeta Jeremias, com suas ricas metáforas, viu a Palavra de Deus como um martelo que esmiúça a penha, ou seja, capaz de quebrantar o coração mais endurecido, Jeremias 23.29. Outras citações do AT poderiam ser mencionadas, mas o fato é que nenhum livro ocupa essa dimensão, se for um compêndio humano. A Escritura é a reta palavra de Deus e contém a reta doutrina emanada de sua própria boca por inspiração do Espírito Santo aos instrumentos humanos designados pelo Altíssimo para escrevê-la..

Em seu confronto com os fariseus, o próprio Jesus autentica a validade da Escritura ao reconhecer que eles, embora estivessem em contradição com a mesma Escritura, examinavam-na com o propósito de encontrar nela a vida eterna e por saberem que ela testificava acerca do Messias, João 5.39. O texto não é um mandamento, mas a constatação de que os fariseus a examinavam com a premissa certa, mas a interpretação errada, pois não reconheciam a Jesus como o enviado de Deus (ver o verso seguinte). No caminho de Emaús, outra vez autentica a validade do AT ao encontrar-se com os dois discípulos frustrados. Ele os repreende, abre os seus olhos, mas o faz expondo-lhes toda a Escritura, começando por Moisés. Na sequência, apresenta-se aos discípulos, certamente no Cenáculo, em Jerusalém, e expõe os mesmos argumentos -  Tota Scriptura - só que desta vez alude à classificação usual da Bíblia Hebraica naquela época: Moisés, Profetas e Salmos, João 5.44-49. Ou seja, se a Escritura e a doutrina por ela exposta não forem classificadas como retas e verdadeiras, que sentido faz a existência da Igreja?

No entanto, o tema da reta doutrina costuma ser levantado em relação às epístolas, como se fossem menos inspiradas e tivessem menos valor e menor autoridade do que as palavras do Senhor. É tanto que os defensores da tese apelam para definir que Jesus é a chave hermenêutica de modo que tudo mais tem de ser interpretado segundo a sua perspectiva, descartando-se o que não estiver aí enquadrado. Soa até bonito e atraente. Mas é uma premissa falsa. 

A primeira razão é que os registros das palavras de Jesus foram feitos por outras pessoas, nos evangelhos, não pelo próprio. Não há qualquer documento que ele tenha escrito de próprio punho. Ou seja, se acreditamos na fidelidade dos registros do que ele disse, feitos por terceiros, nos evangelhos, por equivalência devemos acreditar nos demais livros do NT, visto que em relação ao AT, como já vimos, o Senhor mesmo o vaticinou. A segunda razão é que o conteúdo das epístolas, bem como a narrativa lucana em Atos refletem os ensinos de Cristo e em sua maior parte detalham a sua doutrina encontrada em resumo no Sermão do Monte.

Portanto, todas as vezes em que os autores do NT advogam a defesa da sã doutrina  isso implica não só que ela espelha a doutrina de Cristo (2 João 1.9), mas que os seus ensinos são verdadeiros e assim devem ser recebidos, Tito 2.1. É digno de nota que Paulo ao ensinar sobre a Ceia do Senhor à igreja de Corinto é bastante assertivo: "Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei", 1 Coríntios 11.23. Por extensão, significa que todo o seu ensino oral e escrito tiveram origem em Cristo. Aliás, em sua epístola escrita aos Gálatas, para combater os ensinos perversos do legalismo, deixa isso claro (1.11,12), acrescentando que os apóstolos lhe estenderam a "destra da comunhão", o que basicamente significa que a sã doutrina por ele pregada era a mesma pregada pelos apóstolos.

Ora, se há a sã doutrina, pura, santa e perfeita, como registrada na Escritura, a mesma Palavra refere-se também à falsa doutrina. O próprio Jesus deixa implícita a sua existência ao condenar os fariseus por ensinarem "doutrinas que são preceitos de homens", Marcos 7.7. Nas epístolas são chamadas de "doutrinas de demônios" (1 Timóteo 4.1), "vento de doutrina" (Efésios 4.14) e "doutrinas estranhas". Ao mesmo tempo há sérias advertências contra aqueles que proclamam a falsa doutrina e recomendações fortíssimas para que não lhes emprestemos os ouvidos, a mente e o coração, 1 Timóteo 1.3-5; 1 João 1.7-11; Gálatas 1.8. Chegamos, então, ao ponto que esta postagem quer afirmar: há uma doutrina, reta, santa, pura, sã, perfeita revelada na Escritura e que cabe a nós buscar entendimento, mediante a iluminação do Espírito Santo, para entendê-la em contraponto ao veneno mortal da falsa doutrina.

Mas ao final desta primeira postagem sobre o tema, é preciso responder a uma pergunta: por que, ainda assim, há esse imenso cipoal doutrinário, além de cristãos que eu chamo de degradê por concordarem com tudo quanto lhe ensinam sem cotejar com a Escritura? Em poucas palavras: 1) equívocos na interpretação da Escritura; 2) orgulho por serem mestres de si mesmos; 3) vida cristã rasa que pouco valoriza a Palavra de Deus; 4) consideram a Escritura insuficiente e vivem em busca de novidades; 5) desejo pecaminoso de impor o seu pensamento como verdade, e 6) considerar-se como alguém mais sublime, que alcançou outro nível de conhecimento, sendo por isso capaz de encontrar "verdades reveladas" ainda ocultas ou subliminarmente escondidas no próprio texto bíblico.

Na próxima postagem, falaremos sobre a sã doutrina ao longo da tradição cristã.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

A SABEDORIA QUE VALE A PENA



A epístola de Tiago parece que foi escrita pouco tempo depois da perseguição contra os cristãos em Jerusalém, que, em razão do episódio, foram espalhados pelo mundo de então. O seu autor teria sido o apostolo Tiago, um dos filhos de Zebedeu, que, ao lado de Pedro e João, fazia parte do círculo mais próximo de Jesus. Ele teve como propósito primário fortalecer a fé dos cristãos judeus, como se depreende de seu primeiro verso. A epistola não foi escrita para corrigir supostos erros de Paulo, como pretendem alguns, o que estaria em flagrante contradição com o conceito do "Tota Scriptura", que defende a Palavra de Deus como inspirada, infalível, inerrante, eficaz, completa e suficiente de tal maneira que as partes do "Sola" se complementam no "Tota" com coerência e continuidade. A título de exemplo, Lucas não se sobrepõe a Paulo. Este, por sua vez, não se sobrepõe a Lucas.

Naquela época os cristãos - judeus ou gentios - só dispunham do Antigo Testamento. Mas até que o cânon fosse fechado, logo surgiram as primeiras circulares, isto é, as epístolas que serviram para tratar de diversas situações na igreja incipiente, entre elas a de Tiago. O seu propósito foi levar encorajamento, fortalecimento, recomendações e valorizar o efeito da fé em Cristo não só diante das perseguições, mas em todas as áreas da vida, num alinhamento perfeito com o que Paulo ensinou em suas epístolas. É sob essa perspectiva que a sua carta é introduzida, pontuando logo de início diferentes circunstâncias que seriam "normais" na vida do cristão, principalmente diante das adversidades que enfrentariam.

Chama-me a atenção que uma de suas primeiras advertências aparece no verso 5, onde recomenda aos cristãos judeus dispersos a buscar a sabedoria do alto. Parece-me até que se trata de um versículo-chave para se entender o que Tiago propõe como marcas evidentes da vida cristã. Dito de outra forma, a única maneira de o cristão em geral enfrentar as circunstâncias da vida e não ser sobrepujado por elas em sua fé é abrigar-se sob a sabedoria dada por Deus e não jactar-se em sua própria sabedoria, situação que tem sido muito comum nos dias de hoje. Achamos que somos sábios em nós mesmos e desprezamos a sabedoria de Deus a ponto de olharmos os demais de cima para baixo, fruto da triste sabedoria segundo o mundo.

Nos quatro versos anteriores do capítulo primeiro, Tiago fala das provações, perseverança e termina dizendo que "a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes". Sem muito alongamento, é um padrão elevado de vida que poderia ser resumido em constância, firmeza, completude, integridade e eficiência. Em outras palavras, uma forte muralha com profundos alicerces contra as pressões da vida sobre a nossa fé. Já nos versos seguintes ao cinco a ênfase do apóstolo recai sobre o perigo da dúvida, o perigo da inconstância, o perigo das riquezas, o perigo das cobiças, o perigo da ira, para então enfatizar que "toda boa dádiva e todo o dom perfeito são lá do alto". Tiago também aduz: "Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos".

Fico de fato com a impressão que o verso cinco é o divisor de águas, a chave para que possamos metabolizar e pôr em prática os princípios descritos nos versos posteriores e em toda a epístola diante de qualquer circunstância que venhamos a experimentar, como as também descritas nos versos anteriores. Nas provações, diante dos embates contra a nossa fé, na tentativa de imposição de outros deuses em equivalência ou até mesmo suplantação ao próprio Deus, na negligência de uma fé teórica e arrogante, no arroubo de uma teologia intelectual que consegue partir cabelo a machado, mas não tem vida em si mesma, falta-lhe piedade, pois é como se estivesse a dissecar cadáveres, repito, em todas essas circunstâncias só há um único e singular caminho: a sabedoria que vem do alto.

No verso cinco, Tiago é enfático aos que necessitam dessa sabedoria. A sua afirmação presume que há cristãos incluídos nessa categoria. São pessoas que falam o que vem à cabeça. Não se preocupam em ouvir primeiro, ponderar, avaliar e depois falar (ou não). Falam antes e só pensam depois. Incluem-se no mesmo grupo aqueles que torcem a Escritura para que os textos digam o que querem ou adicionam os próprios pensamentos como se Palavra de Deus fossem. Cabem também os que fazem da Escritura apenas um par de muletas, numa tentativa de se sustentar, pois dela já estão distantes há muito tempo com sua teologia liberalizante, "descanonizada" e experencial.

Mas o apóstolo não é egoísta. Ele aponta o caminho para a sabedoria que vem do alto: "Peça-a Deus". Tão simples, mas, ao mesmo tempo, de uma exigência exponencial. Significa abrir mão de nosso orgulho, abrir mão de nossas presunções acadêmicas, abrir mão de nossa prepotência intelectual, reconhecer que o nosso saber não passa de esterco, pouco importando a quantidade de diplomas pendurados na parede do nosso escritório ou gabinete. É certo que, além da Escritura, o caminho pode passar pelo legado de homens piedosos que deixaram e ainda nos deixam milhares de obras inspiradoras. Mas lê-las todas é impossível. Ainda assim - e por isso mesmo - devemos pedir a Deus que nos oriente não apenas sobre o que devemos ler, mas também a quem devemos ler. Fiz questão de grifar a última frase, porque, segundo entendo, o peso espiritual, o peso da piedade, o peso do comprometimento do autor com Deus devem ser levados em conta sobre o que devemos ler.

Outro dado de elevada importância na recomendação de Tiago é que Deus "a todos dá liberalmente e não lhes impropera". A primeira percepção implica numa dádiva irrestrita, isto é, todos os cristãos podem e devem pedi-la e todos os cristãos podem e devem experimentá-la sem que Deus fique a toda hora "jogando em nossa cara", como alguns de nós fazemos. A segunda percepção é que tal sabedoria é dada com liberalidade, ou seja, de maneira generosa, sem quaisquer resquícios de egoísmo ou mesquinhez. É algo que Deus faz com prazer. Ele quer que todos os cristãos desfrutem de sua sabedoria. A terceira percepção é que a todos quantos pedem a sabedoria lhes é concedida. Não é um privilégio de "iniciados" em que se tem de passar por um rito de iniciação. Não é um sistema gnóstico ao qual poucos têm acesso. Não é uma confraria (para evitar outro termo), onde só os participantes são os únicos depositários da sabedoria de Deus. Não! Repito: Deus "dá a todos liberalmente".

Uma das coisas que mais aprecio é me assentar ao lado de irmãos com pouca formação acadêmica (não que o estudo seja irrelevante) e em silêncio ouvi-los e usufruir horas e horas da sabedoria que Deus lhes deu. É um gracioso privilégio! Como aprendo! Muitos deles não tiveram a oportunidade de frequentar um curso teológico (abençoados os que têm a oportunidade), mas todos os dias se ajoelham diante de Deus e, com a Escritura aberta, bebem de sua sabedoria! Se ainda não o fez, experimente esse exercício. Deixe um pouco a cadeira de seu escritório ou gabinete, saia um pouco da frente da tela de seu computador e vá atrás de um desses irmãos! Você verá que valerá a pena!

Amanhã em nossa primeira hora do dia que a nossa oração pungente, sincera, persistente, se preciso banhada em lágrimas tamanha a nossa pequenez, seja essa: "Senhor, enche-me de tua sabedoria. Não a sabedoria segundo o mundo, mas a sabedoria segundo Deus". Pergunte também: "Além da Escritura, que livros devo ler hoje e nos próximos dias?". Você sentirá a diferença.

sábado, 12 de setembro de 2020

 CARTA PÚBLICA DE PEDIDO DE PERDÃO

 


A luta por ideais nos pode levar a caminhos que depois avaliamos não terem sido as melhores opções. Por algum tempo usei o meu blog para falar de questões institucionais ligadas à CGADB. No primeiro momento, em defesa de sua liderança e contra aqueles que lutavam por assumir o protagonismo na instituição. No segundo momento, já em fase posterior, levantando ou dando voz a questionamentos contra a então administração, que, embora pudessem ter alguma legitimidade em relação aos direitos de cada convencional, tomaram o caminho do litígio e desaguou em hostilidade generalizada.

Após orar a Deus, decidi do profundo da minha alma – acredito que seja a direção do Senhor – que essa é uma área que não me cabe. Para ela não fui chamado e não devo, doravante, imiscuir-me nos assuntos institucionais de nossa igreja, a não ser continuar na missão para a qual o Senhor me convocou: ser um expositor da Palavra tanto na pregação quanto na forma escrita.

Decidi também reconhecer de forma pública que, nesse afã de me colocar no campo das disputas institucionais, certamente muitas pessoas podem ter ficado ofendidas, às quais gostaria de deixar registrado o meu pedido de perdão. Citá-las nominalmente me seria difícil por não saber quem exatamente pode ter-se sentido ofendido por minhas palavras. Faço-o tanto em relação aos que estavam e continuam a estar à frente da CGADB quanto aos que, no outro campo, foram também, anteriormente, alvos dos meus questionamentos.

Mas não poderia deixar de citar de modo específico o pastor José Wellington Junior e, por último, o pastor José Wellington Bezerra da Costa, então presidente da CGADB e atual presidente do Conselho Administrativo da CPAD. Reconheço ter sido ele uma das principais mãos que Deus usou para que eu chegasse aonde cheguei.

Entre outros, foi o pastor José Wellington quem viu em mim algum dom da parte de Deus e me abriu as portas para ocupar a então Diretoria de Publicações da CPAD – o que fiz com bastante autonomia – tornar-me por 10 anos Secretário da Comissão da Década da Colheita, da qual ele era o presidente e ainda servir no primeiro termo como Secretário Correspondente da SENAMI e no termo seguinte como seu Secretário Executivo, onde pude contribuir, entre outros projetos, para a fundação da EMAD – Escola de Missões das Assembleias de Deus.

Escrevi coisas envolvendo o seu nome que podem ter sido tomadas – o que é compreensível – como atitude de ingratidão, falta de consideração e até mesmo falta de respeito dadas as circunstâncias litigantes daquele momento. Reconheço que deveria ter sido poimênico e jamais assumir postura de litigância. Já conversei com ambos os pastores de forma cordial – sempre fomos amigos – e de ambos recebi o perdão sem qualquer reserva.

Nada me foi obrigado. Nenhuma imposição me foi feita. A publicação desta carta é uma decisão unilateral de minha parte até para que tenha sobre mim efeito pedagógico e seja uma luz de advertência pública para que eu resista à tentação de qualquer atitude litigante no âmbito institucional-eclesiástico. Enquanto Deus me der vida e saúde, tenho muito o que fazer – na área em que o Senhor me chamou e para a qual fui vocacionado.

O meu abraço fraterno aos pastores e companheiros de jornada José Wellington Junior e José Wellington Bezerra da Costa.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Porque não sou devoto de "teologia brasileira"


Nos primeiros anos da minha caminhada teológica, tive bastante entusiasmo pela ideia de construir uma teologia contextualizada à realidade brasileira sob o argumento de que as teologias "importadas" vazavam os seus argumentos a partir de realidades bastantes distintas das que vivíamos. Era uma hipótese bastante atraente. Por que não encontrar compatibilidades pelo viés teológico com os nossos enfrentamentos? Poderia ser até mesmo uma maneira coerente de justificar certas atitudes.

Com o tempo, todavia, percebi que se tratava de um engodo. Não que a nossa realidade deixasse de merecer respostas teológicas que norteassem os nossos posicionamentos, mas pela sutileza marxista envolvida na ideia. No fundo a finalidade era instrumentalizar a teologia com as ferramentas da ideologia política para que ela - a teologia - dissesse o que esta queria dizer. Ou seja, a famosa "teologia brasileira" seria apenas um leito - um canal - onde livremente correriam as ideias marxistas, como uma forma velada de doutrinação esquerdista em nossas cátedras, algo a que se presta hoje a TMI.

A partir de então tomei distância e ojeriza dessa proposta. Entendo que a nossa base para qualquer enfrentamento é o pressuposto de que a Bíblia é a Palavra de Deus, de onde somos capazes de extrair princípios para todas as situações da vida, sem rótulos que  a reduzam por subserviência a este ou aquele viés. Apenas para ilustrar, é puro reducionismo tentar, por exemplo, construir a "teologia do rico" ou a "teologia do pobre", tornando a Palavra de Deus mero eco dos interesses de seus proponentes.

Mas, por outro lado, sempre tendo a Palavra de Deus como base e fulcro para todas as áreas da vida, é justo perguntar que respostas ela tem não só para esses temas, mas também para outros grandes desafios contemporâneos. É óbvio que estaremos, de qualquer modo, fazendo teologia, mas sem rotulagem, reducionismo, deixando de instrumentalizá-la em defesa de posições muitas vezes indefensáveis do ponto de vista bíblico. Hoje, mais do que nunca, a minha base é a Bíblia. Sem rótulos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A vinda de Jesus e o fenômeno da "lua de sangue"


Passou-se o fenômeno da "lua de sangue" e as profecias alarmantes não se concretizaram. Previu-se que o mundo acabaria em setembro, mas pelo menos até agora a roda continua a girar. Aguardemos até meia-noite. Ainda faltam algumas horas. A verdade é que a falta de conhecimento bíblico, aliada à ausência de bom senso, produz tais mensagens alarmistas e catastróficas que nada têm a ver com o verdadeiro ensino bíblico sobre a vinda de Jesus. Mas parece que o povo gosta de viver debaixo dessa opressão.

Em primeiro lugar, temos de entender que os sinais previstos na Bíblia - antes que venha o terrível dia do Senhor - são de natureza cataclísmica, catastrófica, que ocorrem sem qualquer previsibilidade, diferente dos fenômenos naturais, como a "lua de sangue", que só voltará a ocorrer em 2033, quando eu, se ainda estiver por aqui, completarei 79 anos. Ou seja, desde o início da existência do Universo esses fenômenos se repetem e, hoje, são previstos com precisão pelos cientistas. Os sinais bíblicos são de outra natureza. Eles ocorrem de forma abrupta, imprevista, como aconteceu em Teresópolis, em janeiro de 2011, ocasião em que, sem exagero, experimentamos um fenômeno diluviano.

Em segundo lugar, na esteira de tais alarmismos surgem as especulações escatológicas e as teorias conspiratórias, como as que antecederam o ano 2000. Houve até quem ensinasse que Lula seria o Anticristo. O disseminador da teoria baseou-se na visão dos quatro animais dada por Deus a Daniel, representando a sequência dos quatro impérios mundiais - babilônico, medo-persa, grego e romano, simbolizados, nessa ordem, pelo Leão, Urso, Leopardo e Animal Grande e Terrível. Que fez o professor? Construiu um acróstico, em português, com a primeira letra do nome de cada animal, que deu o seguinte resultado: Lula! Experimente você mesmo e veja. Ora, se fosse para ser dessa forma, o acróstico tinha de ser construído com as primeiras letras dos nomes em hebraico! Em inglês, por exemplo, o segundo nome já não permitiria tal conclusão: urso é bear!

Em terceiro lugar, embora haja sinais na Escritura acerca do fim dos tempos, a vinda de Jesus será surpreendente, numa hora em que não pensamos, sem que possa haver a "espera" de um tempo predeterminado. Isto implica numa santa expectativa, que nos impõe estar preparados em todo tempo. As malas precisam estar sempre prontas. Muitas datas foram já marcadas - algumas de repercussão mundial - e só trouxeram frustração, desânimo e perda da esperança. Aqui mesmo no Brasil houve vários casos pontuais que resultaram em consequências amargas!

Em quarto e último lugar, para os que têm esperança a vinda de Jesus não é instrumento de opressão, medo, angústia e pavor. Em suas semanas finais antes da cruz, Jesus diz aos discípulos que não fiquem turbados, tristes, frustrados para então introduzir a solene declaração: "Virei outra vez e vos levarei para mim mesmo". Que alegria! À igreja de Tessalônica em que os crentes pareciam estar preocupados se voltariam a ver os entes queridos que tinham partido, Paulo os instrui sobre a bem-aventurada esperança como motivo de regozijo e conforto. Segundo o apóstolo, fomos destinados para a plena salvação em Cristo Jesus.

Portanto, não espere a próxima "lua de sangue" em 2033 para preparar-se. Esteja pronto hoje, com as malas arrumadas, esperando Jesus. Esse é o verdadeiro proceder do crente!

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Que atire a primeira pedra

Crédito: Célio Nunes
Um dos versículos mais usados contra aqueles que combatem as heresias e outros tipos de erros no meio cristão é o de João 8.7: "Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra nela". Parece que basta citá-lo de forma isolada para impedir que se faça qualquer exposição sobre as atitudes contrárias aos princípios bíblicos praticadas por pessoas que fazem de tudo para acobertar os seus atos pecaminosos. Como mencionei em meu perfil no Facebook, é "uma anomalia desesperadora", que chega a ser um anacronismo hermenêutico, visto que despreza todo o contexto na interpretação.

Como também afirmei na mesma postagem, "uma 'regrinha' básica de interpretação diz que para se aplicar um texto aos dias de hoje ou a uma situação contemporânea, necessita-se primeiro saber em que contexto foi dito ou escrito, bem como o significado pretendido pelo autor. Portanto, antes de disparar versículos isolados, que tal olharmos primeiro o que eles significam à luz do contexto em que estão incorporados?". É à luz disso que gostaria de analisar em poucas palavras o tão propalado versículo abusivamente citado na hora em que alguém é confrontado em alguma falta.

Em primeiro lugar, os doutores da lei - escribas e fariseus - tinham a intenção de pegar Jesus em uma armadilha, qual seja a de descumprir a legislação mosaica, para poderem, então, acusá-lo de traição à fé judaica. Portanto, ao se dirigir daquela forma aos acusadores da mulher apanhada em adultério, essa era a perspectiva que o Mestre tinha em mente: a intenção maléfica engendrada pelos ditos representantes da lei.

Em segundo lugar, faltou, no episódio, a presença da outra parte, que, pelo sistema legal, deveria sofrer a mesma punição: o apedrejamento. Em outras palavras, não estava havendo imparcialidade na acusação. Por quê? Estaria ele sendo "protegido" pelos doutores da lei? Teria escapado? O que estaria por trás dessa ausência? Seria ele um dos membros do grupo de escribas e fariseus? São conjecturas. O certo é que, como parte, não foi trazido juntamente com a mulher acusada. 

Em terceiro lugar, quando Jesus sugeriu que quem estivesse sem pecado atirasse pedra na mulher não quer dizer que ele concordasse com o pecado dela, mas tal sugestão nos leva, pelo menos, a duas conclusões: a) como judeu, cumpriu a exigência da lei ao propor que fossem adiante. Ou seja, desvencilhou-se de imediato da armadilha farisaica. Mas não deixou de ser justo, quando os pôs no mesmo barco da pecadora: "Aquele que de entre vós está sem pecado", e b) ao mesmo tempo, expôs os propósitos maus dos doutores da lei, que certamente estariam incorrendo nas mesmas praticas que condenavam, mas se "protegiam" uns aos outros mediante o "poder" que dispunham. 

Em quarto lugar, ao despedir a mulher, já que os escribas e fariseus não estavam em condições morais para cumprir o preceito legal, Jesus deixou claro o que pensava, disposto a atraí-la ao Reino com a sua bendita graça. Ele não afirmou: "Siga em frente e viva a sua vida" ou "Vá e se divirta à vontade", mas vaticinou de forma explícita: "Vai-te, e não peques mais". É óbvio que encontrou arrependimento naquele coração humilhado e despedaçado diante dos representantes da religião. 

Em quinto e último lugar, eu diria que o texto seria melhor aplicado àqueles que escurraçam as ovelhas, quando elas pecam; àqueles que, como tiranos, não restauram as suas feridas, não as fortalecem, mas preferem esmigalhá-las sob os pés; àqueles que, pelo "poder" que têm, protegem-se uns aos outros de seus pecados e vivem em rasgada hipocrisia diante da religião professante. É a esses que o texto deve ser endereçado, que não têm escrúpulos até em matar as ovelhas, mas querem misericórdia, quando são apanhados nas mesmas faltas.

É simplesmente isso.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Devem as igrejas pagar impostos ao Estado?




Comentei em meu perfil no Facebook sobre a minha posição favorável a que as igrejas paguem impostos, na forma da lei, por entender que isso ajudaria a tornar mais transparentes as suas contas e por compreender que a elas não cabem quaisquer benesses concedidas pelo Estado. É óbvio que o tema é polêmico. Há quem concorde. Há quem discorde. Bem, aqui vão as principais razões, por partes, pelas quais entendo que esse privilégio deveria ser revisto.

1) Impostos existem desde tempos imemoriais e, sejamos sinceros, nenhum de nós gosta de pagá-los. É algo que fazemos com certa contrariedade, principalmente quando se trata de cobranças escorchantes. Mas são eles que dão ao Estado condições de assistir aos contribuintes naquilo que lhe compete. Ou seja, a discussão não busca avaliar se são ou não mal aplicados, mas parte do princípio que eles são indispensáveis para o funcionamento da máquina pública. Se isto não vem sendo feito a contento é outra história. Cabe a nós, eleitores, melhorarmos a qualidade do nosso voto. Portanto, acho que esse não é um bom argumento para justificar a isenção tributária das igrejas.

2) Mas voltando apenas aos tempos do Novo Testamento, vemos a menção ao tributo, quando os fariseus usam-no como isca para tentar apanhar Jesus numa armadilha. O Mestre soube sair do "laço" de forma sábia, como não poderia deixar de ser, sem deixar de reconhecer que, se a moeda circulante pertencia ao Império Romano, a ele caberia receber os impostos devidos, Mateus 22.17-22. Ele mesmo, certa vez, cumpriu de forma miraculosa essa obrigação: pagou os seus impostos, Mateus 17.24-27. Mais tarde, já no período dos primeiros dias da igreja, Paulo não só reconhece a instituição divina da autoridade, como também se reporta ao dever cívico de pagar tributos em ambiente onde os cristãos eram perseguidos pelo poder dominante, Romanos 13.1-7. Em outras palavras, o pagamento de impostos ao Estado é chancelado pela Escritura.

3) Certamente, dirá alguém: "Naquela época não havia templos cristãos de modo que não houve nenhum ensinamento bíblico a respeito". É verdade. Mas também não convém esquecer que os templos entraram na história do Cristianismo com a constantinização da igreja, nos idos dos anos 300 DC. Antes, os que professavam a Cristo reuniam-se em casas, catacumbas, às escondidas, sem nenhuma benesse do Estado. Não podemos deixar de ressaltar que no ambiente neotestamentário o templo perde a sacralidade que tinha no Antigo Testamento. Tanto Jesus corrobora a tese (João 4.20-24) como Estevão sofre o martírio por tocar em vários pontos nevrálgicos para os judeus, entre eles a sacralidade do templo em Jerusalém, Atos 7.44-50. Pois é aqui que reside o problema.

4) Ora, com o advento do Cristianismo como religião oficial do Império Romano, a partir da conquista do trono imperial por Constantino, a igreja passa a desfrutar de privilégios, como a isenção de impostos, o pagamento de seus clérigos pelo Estado, a ascensão de muitos cristãos a cargos de destaque na estrutura de governo, além da incorporação dos templos para os cultos, alguns deles "sequestrados" dos cultos pagãos por ordem do Estado, algo que não ocorria até então. A história é pródiga em mostrar que essa aliança só foi ruim para a igreja. Não preciso descer aos pormenores. Vale dizer apenas que todas essas "vantagens" tiveram cunho político, como algumas, hoje, só têm cunho eleitoreiro.

5) Infelizmente, continuamos com o mesmo modelo. Gostamos de construir templos imponentes, suntuosas catedrais, onde gastam-se rios de dinheiro, com a mesma aura de sacralidade repudiada no Novo Testamento. Na continuidade, pelas vias da informalidade, vê-se cada vez mais essa aliança entre a igreja e o Estado praticada em todos os níveis de governo sempre em busca de privilégios sob os mais diferentes argumentos, como, por exemplo: "O que estamos fazendo é pela causa", quando, aqui entre nós, a causa passa longe desses acordos, onde prevalecem vantagens com fins nada recomendáveis.

6) Diante do exposto, conforme a máxima de Jesus: "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", é preciso rever a nossa caminhada. levando em conta o lema da Reforma: "Uma igreja reformada sempre se reformando". A igreja deve caminhar em seu próprio leito e o Estado no seu, sem misturar as sintonias. O entrelaçamento de ambos só produz mal ao Cristianismo, como revela a História. Com isso, a igreja perde um de seus relevantes papéis: a capacidade de ser voz profética pelo comprometimento com alianças espúrias.

7) Contra o pagamento de tributos pelas igrejas, alega-se, ainda, que seria uma espécie de bitributação, visto que os seus membros já pagam impostos sobre os seus proventos. Não seria justo, portanto, as igrejas pagarem "uma segunda vez" sobre as contribuições recebidas. Mas isso não é bitributação, pois na origem não está o mesmo fator gerador. Considero inconsistente o argumento. Assim como contribuímos para a igreja, também contribuímos para outras organizações ou pagamos mensalidades e anuidades para diferentes associações, as quais, também, pagam os seus impostos, na forma da lei. Estaria, nesses casos, igualmente, havendo bitributação? De forma alguma! Pagamos como pessoa física. As entidades pagam como pessoa jurídica.

8) Assim sendo, concluo afirmando que, por simetria aos textos bíblicos já aludidos e aos exemplos já mencionados, as instituições de ofício religioso deveriam ser tributadas, levando-se em conta, por óbvio, todas as nuances que possam tornar a carga tributária justa, como, por exemplo, a isenção sobre recursos próprios que tiverem sido empregados no âmbito social e educacional. Igreja é Igreja. Estado é Estado. Quanto mais estiverem distantes um do outro, cada um cumprindo o seu papel, melhor.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Porque sou a favor da redução da maioridade penal


Antes de introduzir os argumentos, sou favorável que a prática de crimes seja punida independente da idade, com a devida gradação que leve em conta as circunstâncias na consecução do ato. Como a proposta aprovada pela CCJ da Câmara dos Deputados, sem caráter terminativo (tem de percorrer, ainda, um longo processo para que, em sendo aprovada, receba a sanção - ou não - do Executivo), prevê apenas a redução da maioridade penal para 16 anos, conta com o meu apoio irrestrito por tratar-se de meio-termo, a meu ver, entre o ideal e o possível.

Sei que a matéria é complexa e gera muitas paixões entre os que a discutem. Mas podemos, com equilíbrio, debatê-la sem desqualificar quem se opõe à tese que defendo, deixando o debate apenas no campo da argumentação. Como cristãos, não temos outra saída, senão começar pela Bíblia. Ela tem de ser o nosso ponto de partida para uma análise menos passional. Temos de considerar, também, os pressupostos com os quais a lemos. Os meus partem do conceito que ela é a inspirada Palavra de Deus, inerrante, que contém todos os princípios a serem aplicados à vida.

A primeira questão da qual não podemos fugir é a natureza decaída do homem, que atinge a todos, sem exceção. Nisso concordam calvinistas e arminianos: a depravação total. A nossa inclinação é má e muito influenciável pelas pressões do meio. Costumo dizer que, se as nossas conversas de alguns dias à noite com os nosso travesseiros ganhassem a realidade, o mundo já teria sido destruído pelo desejo de vingança que muitas vezes nutrimos em nossos corações. Crianças, adolescentes e jovens, quando chegam à idade da consciência, passam a viver o mesmo processo. Nesse sentido, não se distinguem dos adultos, embora os seus conceitos de vida possam, ainda, não estar bem cristalizados. Ou seja, é a natureza decaída que resulta nos atos mais perversos do ser humano.

Outro ponto a considerar é que Deus instituiu a autoridade, entre outras razões, como uma espécie de "freio" para a maldade do homem. Romanos 13 não discute o mal uso que se faz dela, mas a sua finalidade. O propósito, como bem diz o texto, não é aterrorizar quem pratica as "boas obras", mas punir os que fazem o mal. As leis, portanto, não têm em si mesmas o poder "gracioso" de restaurar as pessoas, mas de puni-las, caso violem o que elas preceituam. Quem incorre em sua violação, só estará "livre", do ponto de vista legal, após cumprir a sentença imposta. Esperar que transformem o mundo num "paraíso" isento de maldade, é não compreender a natureza das leis e nem a natureza decaída do homem. Elas, em tese, existem para "frear" o mal, repito, mas não têm o poder de extingui-lo.

Com isto em mente, temos de compreender que leis são criadas como resultado das transformações sociais, impondo à autoridade ajustar o sistema legal às necessidades do tempo. A meu ver, se não for possível normatizar a penalização independente da idade, a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, passa a ser a solução mais adequada ao atual momento do país, onde menores de 18 anos cometem os crimes mais hediondos, são apreendidos em sistemas chamados socioeducativos, mas zeram a ficha quando alcançam a maioridade. É desse estratagema que se valem os criminosos de maioridade: não só levam os menores a praticar crimes, mas transferem a eles os seus atos criminosos como forma de se esquivarem da responsabilidade penal, já que, completados 18 anos, as anotações contra esses jovens criminosos serão apagadas. A redução da maioridade penal ajudaria a corrigir essa anomalia jurídica.

Outros há que apelam para o nosso deteriorado sistema carcerário como argumento contra a aprovação da PEC da maioridade penal. Mas a ser assim, temos de trazer de volta para casa todos os doentes internados em nosso péssimo sistema de saúde, onde muitos morrem por falta de atendimento qualificado e urgente, além de abrir as grades para soltar todos os presos pela omissão do Governo em realizar uma gestão de excelência em suas responsabilidades constitucionais. Vale, aqui, como princípio, o que Jesus disse noutro contexto aos doutores da lei do judaísmo nesta paráfrase: "Vocês são eficientes em exigir o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas se esquecem do juízo, da misericórdia e da fé. Façam estas coisas, mas não se esqueçam daquelas". Em outras palavras, uma coisa não anula a outra. Que os sistemas sejam aperfeiçoados, aprimorados, mas também se adequem as leis às necessidade do nosso tempo.

Por fim, sem esgotar o tema, por óbvio, afirmar que a aprovação de tal lei significa decretar a falência da igreja em seu papel restaurador soa falacioso. A prevalecer o raciocínio, teria falhado, também, em relação aos adultos, pois há muitos encarcerados que se chamam Daniel, Eliseu, Isaías, Ezequiel, Lucas, Tiago e outros nomes bíblicos, os quais foram dados por seus pais a esses prisioneiros sob a influência da fé cristã. O que precisamos é aprender a separar o papel do Estado do papel da igreja. Apenas como exemplo, a conversão de alguém na cadeia, embora acerte a sua vida com Deus, não serve de atenuante e não o livra de cumprir a sentença, segundo o que está normatizado em nosso sistema jurídico. Cite-se de passagem que para uma população de cerca de 202 milhões de pessoas, conforme dados de 2014, a nossa população carcerária é de cerca de 800 mil pessoas, que representa menos de 0,5%

Sem deixar, portanto, de reconhecer que a igreja pode fazer muito mais no sentido de "fermentar" a massa e contribuir para a transformação das pessoas pelo poder do Evangelho, cabe à autoridade, em seu papel concedido por Deus, cumprir a sua missão de promover o bem e "frear" o mal com leis que punam em graus diferentes aqueles que são passíveis de sofrer o efeito da mão restritiva do Estado.