A postagem ficou longa, mas para compreendê-la é preciso ler até o fim.
Participei no sábado, 3 de dezembro, como convidado, da Ceia do Centenário das Assembleias de Deus no Brasil, promovida pela AD de Madureira e as igrejas a ela filiadas no Rio de Janeiro. O convite foi extensivo às convenções vinculadas à CGADB no Estado, das quais somente a CEADER enviou representante: pastor Francisco Libório. Estavam presentes diversos líderes denominacionais, além de alguns políticos evangélicos de praxe, dos quais, propositadamente, omito os nomes. O HSBC Arena, na Barra da Tijuca, com espaço para até 18 mil pessoas, lotou e exigiu que os portões fossem fechados, com o retorno de cerca de 80 ônibus aos seus locais de origem sem que os irmãos pudessem entrar, segundo os organizadores. Creio que este tenha sido o último evento de celebração do Centenário, embora não tenha constado, digamos, da programação "oficial". A da CGADB/CPAD.
Comungar ao mesmo tempo da Ceia do Senhor com milhares de crentes que nada têm a ver com as questiúnculas institucionais foi um momento singular. Afinal, o mover do Espírito suplanta os nossos engessamentos eclesiásticos e alcança corações que se reúnem para adorar a Deus em espírito e em verdade, embora as suas lideranças muitas vezes não demonstrem o mesmo sentimento e prefiram guerrear entre si. Entre os cânticos, um deles me foi especial. Sempre o cantei desde a minha infância e jamais me sai do coração. É o 453 da Harpa Cristã, de autoria de Emílio Conde: "Oh, como é bom dos tempos primitivos lembrar". Não me arrependo de ter participado.
Mas devo confessar que passei toda a celebração inquieto. Sentia agigantar-se dentro de mim a indignação que, não tenho dúvida, movia os profetas do Antigo Testamento. Estive a ponto de explodir, mas serenei os ânimos e me contive. Enquanto transcorria a programação, pensava cá com os meus botões que tudo poderia ter sido diferente, se, lá atrás, a CGADB, através de seus diretores, sobretudo o presidente José Wellington Bezerra da Costa, aceitasse as sugestões que lhe foram dadas e compreendesse que o Centenário era de todos os assembleianos e não apenas de um segmento. No Rio, teríamos de encontrar outro local. O HSBC Arena seria pequeno, como ocorreu em 1961, aos meus sete anos, por ocasião das comemorações do cinquentenário, em que o maracanãzinho não comportou a multidão que afluiu sob a liderança de líderes como Paulo Leivas Macalão, Túlio Barros Ferreira, Cícero Canuto de Lima e até com a presença do próprio Daniel Berg.
O meu espírito agitou-se ainda mais quando as palavras do pastor Samuel Ferreira, da AD do Brás, SP, ecoaram no HSBC Arena, ouvidas por milhares de pessoas, que podem confirmar, se quiserem, o que foi dito. Informou ele ter procurado o presidente da CGADB para que juntos - o Belenzinho e o Brás - fizessem a comemoração do Centenário em São Paulo. Mas não teria encontrado eco, razão pela qual ambos os ministérios estiveram em trincheiras diferentes no dia 15 de novembro. O Belenzinho no Pacaembu e o Brás na Arena Barueri. Mas o pior vem agora: ele acrescentou em tom de ironia que em São Paulo o Governador Geraldo Alckmin seria mais forte do que Jesus, pois era capaz de reunir ambos - José Wellington e Samuel Ferreira - em torno da mesma mesa, enquanto o Senhor não os unia por sua causa. Confesso que, para mim, foi o fim da picada. Estremeci em minha cadeira!
O pastor Silas Malafaia também não perdeu a chance. Em sua rápida mensagem sobre a multiforme sabedoria de Deus, com a qual justificou de maneira correta e com boa exegese a existência de diferentes denominações, disse que ele "metia bordoada" no Bispo Macedo, mas que eximia a IURD por ser ela parte do Corpo de Cristo. Ou seja, não se mexe com a Igreja. E arrematou, citando suposta conversa com um diretor da Globo, a quem teria dito: "Falem mal do Macedo, mas não falem mal da IURD". Frase que permite muitas leituras, entre elas a de que o pastor Silas Malafaia poderia estar cometendo o mesmo erro de Caio Fábio no passado ao supostamente associar-se à vênus de prata no seu combate ao Bispo e, por consequência, à Record, o que explicaria o modo como a Globo adula cada vez mais os evangélicos nos últimos tempos, o que vejo como mera ilusão! Não que a Record mereça algum crédito. Para mim, ambas estão no mesmo saco.
Procurei manter sereno o meu espírito até porque dali a pouco participaríamos da Ceia do Senhor. Mas me sentia como um vulcão. E não era para menos. Nessa altura martelava em minha mente o último vídeo (veja aqui) que circula nas redes virtuais, dando conta que a parceria entre o Bispo Manoel Ferreira e o Rev. Moon se teria consolidado. Para quem, lá atrás, num programa apresentado pelo pastor Samuel Ferreira, afirmara que não tinha laço algum com o líder da Igreja da Unificação, o evento realizado na AD de Brasília, DF, no mês de outubro, onde se encontra a sede da CONAMAD, em parceria com a fundação presidida pelo filho de Moon, é uma afronta ao verdadeiro Evangelho de Cristo e expõe de forma crua os laços entre o Bispo e o Rev. Moon. As cenas são claras. Ora, a mensagem que o líder da Unificação prega, a proposta que difunde, não é cívica, política ou social, mas de natureza religiosa. Eis o resumo da ópera: Jesus fracassou, ao morrer na cruz, e Moon foi incumbido de completar a obra mediante a formação da "família sob Deus", da qual ele e a esposa seriam os pais verdadeiros. O projeto tem prazo de validade: 13 de janeiro de 2013.
Há alguns anos. o Rev. Moon tentou dar o seu primeiro bote entre os evangélicos, quando convidou muitos líderes para participar de um Congresso realizado no Uruguai, entre os quais vários pertencentes às Assembleias de Deus. Quando tomei conhecimento do fato, uma dúvida assaltou o meu coração: embora fosse o chefe do Setor de Jornalismo da CPAD, me seria difícil denunciar o fato no Mensageiro da Paz. O que fazer? Entrei em contato com o editor da revista evangélica Vinde, jornalista Jorge Antonio de Barros, hoje no O Globo, e passei-lhe o "furo". A reportagem foi matéria de capa e ajudou naquele momento a desmontar a estratégia incipiente de atrair os evangélicos brasileiros para a órbita do Rev. Moon. Mas ela voltou com força através desta aliança.
Desfruto da amizade do Bispo. Tenho imensa vontade de tratar desse assunto com ele de forma pessoal. Não tive a oportunidade. Por outro lado, não pertenço ao ministério de Madureira. Mas acho que os pastores que o cercam não deveriam omitir-se. Verdadeiros amigos buscam livrar o amigo do precipício. É hora de criar coragem, perder a timidez e não se deixar levar por caprichos humanos. Com temor e tremor afirmo: o que está em jogo aqui não é nem mesmo a instituição, mas a própria vida espiritual do Bispo. Não é hora de protelar, pois a linha divisória entre a fé e a perdição está a um passo. Beira à apostasia. No vídeo anuncia-se que o próximo evento, conhecido como Global Peace Festival, será em Goiânia, GO, em 2012. Creio que os pastores ligados à Madureira naquela capital deveriam desde já tomar posição firme de rejeitá-lo sob pena de virem a ser parte de uma mesa que nada tem de Cristo. Por outro lado, trato da questão de forma pública, porque o evento foi público e sua divulgação também tornou-se pública.
Foi nessas condições que cheguei ao clímax da celebração: a Ceia do Senhor. Como afirmei logo no início, embora machucado em minha alma, participei com os meus milhares de irmãos que lá estavam por serem eles apenas ovelhas que não respondem pelos atos de seus líderes e terem sido alcançados pelo evangelho por dois homens simples, Gunnar Vingren e Daniel Berg, os quais não tinham outras pretensões a não ser anunciar que Jesus salva, cura, batiza no Espírito Santo e voltará para levar a sua Igreja. Pela mesma fé que nos une, comi o pão e bebi o cálice como memorial da morte e ressurreição do Senhor até que ele venha. E tomei o rumo de casa.
Mas sentia-me triste. Embora diversas celebrações do Centenário tenham sido realizadas nas diferentes regiões do país e a própria Igreja-Mãe promovesse uma semana memorável na data dos 100 anos; embora a Ceia do Senhor que acabava de ser celebrada reunisse milhares de pessoas aos pés de Cristo, sentia-me triste porque deixamos passar, por nossas vaidades, por nossa presunção, por nossa inflexibilidade, a grande oportunidade histórica de mostrar a pujança do movimento pentecostal no Brasil, com uma comemoração que celebrasse a unidade. Perdemos o trem da história. Embora creia na soberania de Deus, foi uma noite de angústia.
Todavia, já no domingo, dia 5 de dezembro, enquanto estava assentado no sofá da sala de nossa residência, olhei para a estante e me deparei com um troféu que ganhara no dia 30 de abril, em Acreúna, GO, quando ali estive, ao lado do pastor Elienai Cabral, para ministrar numa Conferência de Escola Bíblica Dominical naquele fim de semana em que a igreja promovia também uma comemoração regional do Centenário. Para a minha surpresa, percebi algo que até então não havia notado: entre as fotos de Gunnar Vingren e Daniel Berg, por cima da logomarca dos 100 anos, aparecia também transparente a minha foto. Fiquei espantado. Olhei mais algumas vezes, mostrei à minha esposa e confirmamos que se tratava mesmo da minha fotografia. É óbvio que nos troféus oferecidos aos demais homenageados, com o apoio da CADESGO, deve constar também a foto de cada um. Mas no meu caso, a descoberta apenas um dia após o encerramento do ciclo das comemorações do Centenário teve caráter especial. Foi como se Deus dissesse: "O seu trabalho, ao lado de tantos outros na blogosfera, que encamparam a campanha em favor da unidade no Centenário, não foi em vão, embora não tenha aparentado nenhum fruto. Mas no tempo certo esses frutos aparecerão". Descansei no Senhor. Fiquei em paz, e à noite, mercê de Deus, pude pregar uma das mais poderosas mensagens entre as que preguei durante 2011.
Essa é a razão pela qual ilustro a matéria com a foto do troféu que ganhei em Acreúna, onde aparecem também, de um lado, o missionário Eurico Bergstein, e de outro, o pastor Cícero Canuto de Lima. Na parte de baixo aparecem os pastores vinculados à CADESGO. Vou guardar o troféu com muito carinho.
PS 01: O pastor Samuel Câmara representou a Igreja-Mãe na Ceia do Centenário.
PS 02: Uma das grandes contribuições dos blogs é expor o que muitas vezes a história "oficial" omite.
PS 03: Neste fim de semana volto à Acreúna com essa alegria no coração para ministrar na Escola Bíblica de Obreiros.