As bem-aventuranças dos "pastores idiotas"


Bem-aventurados sois vós, "pastores idiotas", quando fordes xingados com este epíteto simplesmente por acreditardes no que disse Jesus: "Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem consomem, e onde os ladrões minam e roubam" (Mateus 6.9). Tal ato insano, ao invés de vos maldizer, mostra que ainda estais firmes na verdade.

Bem-aventurados sois vós, "pastores idiotas", que não sucumbistes aos "encantos" da teologia da prosperidade por compreender que "os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína" (1 Timóteo 6.9). Não vos entristeçais, nem penseis que estais sozinhos. Há muitos outros "idiotas" convosco, inclusive o apóstolo Paulo.

Bem-aventurados sois vós, "pastores idiotas", por não vos curvardes aos arautos que vos maltratam em virtude de crerdes que aos ricos deste mundo a Palavra de Deus ordena: "Não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas" (1 Timóteo 6.7). Tal maldição é, na verdade, um reconhecimento de que pondes a vossa confiança não nas riquezas desta vida, mas na abundância que vos é dada para a glória de Deus.

Bem-aventurados sois vós, "pastores idiotas", que resistis aos apelos dos que vos querem enredar com o brilho do ouro que perece, porque vós bem sabeis que é vosso dever continuardes a ensinar às suas ovelhas "que façam o bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente, e sejam comunicáveis" (1 Timóteo 6.18). Saibais que outros "pastores idiotas" iguais a vós foram já recebidos na glória e aguardam o precioso galardão.


Bem-aventurados sois vós, "pastores idiotas", porque não perdestes a visão da semeadura e, por isso mesmo, sabeis que não se ganham almas com o glamour das riquezas humanas, mas com a sementeira do evangelho. Sem esquecerdes da advertência da parábola do semeador, que diz: "Os cuidados deste mundo, e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera" (Mateus 13.22).

Bem-aventurados sois vós, "pastores idiotas", por não perfilardes o triunfalismo da pregação humanista, centrada no homem, que enriquece a quem prega e defrauda a quem ouve. Ainda que vos pareça estardes "fora do modelo contemporâneo", alegrai-vos porque continuais apegados ao modelo bíblico, que diz: "Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo" (Gálatas 6.14).

Bem-aventurados sois vós, "pastores idiotas", que embora injuriados pela vossa pregação "arcaica", ainda carregais no bolso do vosso coração a credencial de servo do Altíssimo, enquanto alguns já a trocaram pelas credenciais de semideus, arrogante e soberbo e usam-na ao sabor das circunstâncias para se locupletarem em cima da lã de suas ovelhas.

Bem-aventurados sóis vós, "pastores idiotas", que, enquanto alguns voam os céus do mundo em modernos jatinhos, trafegam as grandes avenidas em luzentes automóveis e se deleitam nos mármores de grandes mansões, o vosso prazer é estar junto das ovelhas, alegrardes com elas e, se preciso for, dar por elas a vossa própria vida. Não vos esqueçais que outros "idiotas" iguais a vós se encontram já no Reino do Pai.


Bem-aventurados sois vós, "pastores idiotas", que preferis o "prejuízo" da coerência, da fidelidade a toda prova aos princípios imutáveis da Palavra de Deus, do que sucumbirdes - ainda que tentados - às lentilhas que se vos oferecem para amenizar eventuais necessidades imediatas. Mais vale o pão dormido da consciência tranquila do que os banquetes da consciência aprisionada.


Bem-aventurado sois vós, "pastores idiotas", pelo modo como sois tratados por amor do nome do Senhor e por não vos enredardes pelo brilho passageiro da glória humana. Não sois melhores por isso, mas também não sois piores. Todavia, enchei o vosso coração de alegria porque o vosso nome faz parte da galeria dos heróis da fé que professam somente a Cristo e têm Deus como o bem maior da vida. Tende como lema o que Paulo ensinou: "Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos" (Filipenses 4.4).


Assina um "idiota" como todos vós.

Pastor e poeta evangélico, 25 anos antes de morrer, escreve com serenidade sobre a sua própria morte



Joanyr de Oliveira e João Tomaz Parreira, um brasileiro,
outro lusitano: dois luminares da poesia evangélica


Jefferson Magno Costa

Em uma manhã de sábado, dia 5 de dezembro de 2009, perdemos o sublime poeta evangélico Joanyr de Oliveira. No domingo, dia de descanso, Dia do Senhor, dia em que o pastor e poeta completaria 76 anos de idade, seu corpo foi sepultado no Cemitério Campo da Esperança, em Brasília.

Conheci Joanyr de Oliveira em 1978, quando ele esteve no templo sede da Assembleia de Deus em Natal, para lançar a Antologia da Nova Poesia Evangélica, livro que reunia poemas de poetas evangélicos brasileiros e portugueses, aos quais, durante vários anos, Joanyr havia orientado, doutrinado, corrigido, aconselhado, através da famosa seção de poesia da revista A Seara, Contato Poético.

Por eu ser um dos autores incluídos na antologia, o nosso líder maior, o saudoso pastor João Batista da Silva, para minha surpresa, chamou-me até o púlpito para que a igreja me conhecesse, para que eu recebesse um abraço do poeta Joanyr de Oliveira, e para que ele me presenteasse com um exemplar autografado do livro que me incluía como o único poeta norte-riograndense a figurar naquela antologia.
Para um rapaz desconhecido, inexpressivo, interiorano, cheio de sonhos, admiração e respeito pelos ícones da literatura evangélica brasileira (Joanyr de Oliveira era o nosso maior poeta), foi uma emoção única, inesquecível.

No ano seguinte, já transferido pela Marinha e morando no Rio de Janeiro, visitei o pastor Joanyr, que era Diretor de Publicações da Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Pouco mais de dois anos depois, recebi dele e do pastor Abraão de Almeida o convite para trabalhar como membro do Departamento de Jornalismo daquela editora.

Deus traçou minha trajetória de trabalho naquela Casa. Uma das honras que obtive foi substituir o pastor Joanyr de Oliveira na condição de comentarista da seção Contato Poético, da revista A Seara.

E quando, em fevereiro de 1985, entre muitas outras atividades jornalísticas, iniciei meus trabalhos de crítico e orientador de poesia, abri aquela seção comentando um poema de Joanyr de Oliveira, intitulado Despedida, talvez, no qual nosso saudoso amigo despedia-se poeticamente da vida. Ora, para nossa felicidade, só quase 25 anos depois é que o poema se tornou realidade plena na biografia do poeta.

Pagando hoje uma dívida de amigo, de admirador, de assíduo leitor de seus poemas, e prestando uma justíssima homenagem ao grande poeta que Joanyr de Oliveira foi e continua sendo todas as vezes em que um poema seu é lido, transcreverei a seguir seu poema Despedida, talvez, seguido do nosso comentário escrito naquela época:


DESPEDIDA, TALVEZ

Joanyr de Oliveira


Pelas portas de janeiro
Estendo antigos poemas
Que até parecem alheios
E estão repletos de luas...
Quem os dirá algum dia
Na placidez destas ruas?

Pelas portas de janeiro
Ao Universo eu espio
E afago. E me sinto pronto
Para esquiar as estrelas:
Anseio agora tocá-las
Porque cansado de vê-las...

Pelas portas de janeiro
Vislumbro as plagas do céu
E a luz que as aureola
Em coloridos sem fim,
Que nascem das mãos eternas
E passam também por mim.

Pelas portas de janeiro 
Olho, e me amadureço
Para apagar as palavras
Das pessoas mais queridas,
Trocando-as tranquilamente
Por celestes avenidas.

Pelas portas de janeiro
Minha alma voa tão leve
A beijar sóis e arcanjos
Que os olhos plenos de luz
E a concha azul de meus versos
Colhem a voz de Jesus.



Uma rápida identificação e análise dos recursos usados por Joanyr de Oliveira no poema Despedida, talvez, certamente nos levará a entender melhor alguns dos mecanismos acionados pelos poetas durante seu processo poético.

É certo que não faremos uma completa identificação dos elementos que compõem a parte técnica do poema de Joanyr de Oliveira, pois isto implicaria em termos que apresentar aqui uma ampla definição de métrica, rima e estrofação, além de fazermos um breve histórico das escolas literárias.
Por enquanto, o leitor deve saber que no poema Despedida, talvez, foram usados versos de sete sílabas (Verso é cada linha que compõe o poema; a reunião de vários versos forma uma estrofe. O poema de Joanyr de Oliveira é composto de cinco estrofes de seis versos; cinco sextilhas, portanto).

Quando analisávamos as linhas gerais deste poema, com o propósito de encontrar “a ponta do fio do novelo” que nos conduziria à sua essência, ao sentimento que desencadeou sua carga poética, lembramo-nos de um poema do genial poeta português Fernando Pessoa, onde ele, como Joanyr de Oliveira, também se despede de seus versos:



Da mais alta janela da minha casa
com um lenço branco digo adeus 
Aos meus versos que partem para a Humanidade. 
E não estou alegre nem triste. 
Esse é o destino dos versos. 
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos 
Porque não posso fazer o contrário (...).” 


Mas o sentimento que motiva o restante do poema do poeta português é bem diferente do sentimento que conduz Joanyr pelas portas de janeiro.

O grande poeta evangélico sente-se como um fruto maduro, pronto a partir para a eternidade, a esquiar as estrelas, e em condições de apagar as palavras/das pessoas mais queridas,/trocando-as tranquilamente/ por celestes avenidas/. Em suma: é a serenidade com que o tema da morte é encarado pelos evangélicos. Joanyr calca sua poesia nesta atitude tranquila.

Para os evangélicos, não existe reação de revolta e inaceitação diante de morte – comportamento muito comum por parte daqueles que não têm esperança de beijar sóis e arcanjos, e mergulhar na plenitude da luz de Cristo. Ninguém, que não tenha a esperança que temos, poderá entender porque consideramos o assunto morte com tanta serenidade.
O próprio poeta português Fernando Pessoa, diante da morte de Sá-Carneiro, seu amigo e confrade em poesia, deu provas de uma profunda incompreensão e amarga resignação: 



Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei certa e falsa sorte,

Tem só uma demora de passagem 
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento; 
Mas, seja como for, segue a viagem. 
(...)



O verso inicial de Joanyr, Pelas portas de janeiro, encima as demais estrofes de Despedida, talvez, e é responsável por essa sensação de saída (portas) e de arrebol e início (janeiro) que se forma em nosso espírito a partir do momento em que iniciamos a leitura.
     
Na primeira estrofe, os versos: Estendo antigos poemas/Que até parecem alheios/e estão repletos de luas/, representam a cristalização de uma obra (no caso de Joanyr, a soma de sua produção poética) que amadureceu e passou a pertencer mais às pessoas que a leem e assimilam do que ao próprio autor que a produziu (Lembremo-nos da pérola: quanto mais ela se desenvolve no interior da ostra, mais aumenta sua condição de “corpo estranho” no seio daquela que a está formando).

Lua é uma figura muito usada pelos poetas para representar um estado onírico (sonho). E quando a alma do poeta estiver voando leve pelas plagas do céu, será que seus versos continuarão sendo lidos na placidez destas ruas?

E estrofe por estrofe, o poeta vai-se predispondo a partir, a esquiar as estrelas, a aproximar-se delas e tocá-las porque cansado de vê-las. E já vislumbra as regiões do céu (plagas), e já sente-se tocado pela claridade que nasce das mãos eternas, e maduro o suficiente para apagar as palavras das pessoas mais queridas.
Sua alma, que voa leve e é beijada por sóis e arcanjos, banha-se de luz. E Joanyr encerra o poema com uma imagem que envolve cor (azul de meus versos, que lembra também o azul do céu) e som (voz de Jesus), que lembra a saudação divina: “Vinde, benditos de meu pai...” (Mateus 25.34).



Poetas que não conhecem ou conheceram Jesus não escrevem poemas assim. Manuel Bandeira, um dos maiores nomes da poesia brasileira de todos os tempos, desnuda sua alma sem esperança, sua vida transcorrida longe dAquele que poderia ter-lhe dado a plenitude existencial e a perspectiva da felicidade eterna, no seu poema

A MORTE ABSOLUTA:



Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.



Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.


Quem não tem Jesus como Redentor de sua alma, vê o seu destino, a transitoriedade da vida de forma pessimista, melancólica. Muitos esperam a morte como o poeta judeu-brasileiro Augusto Frederico Schmidt a esperou e expressou em um de seus poemas:


PAZ DOS TÚMULOS



Ó paz dos túmulos
Ó frio das tardes invernais nos cemitérios
Ó mármores gelados, rosas frias, noites de gelo, como vos espero!
Quando serei silêncio e frio apenas?
Quando serei apenas o íntimo da terra?
Quando, enfim, dormirei na paz – na álgida paz?
Ó vento que matais as rosas, vento frio!

Quando me levareis mudado em poeira?
Quando me levareis pelas ruas
Quando me levareis em mim mesmo mudado
Para o grande mar, o grande mar, o grande mar...?

Não posso deixar de comparar o poema que Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta brasileiro de todos os tempos, deixou como epitáfio, com o poema que o nosso Joanyr de Oliveira escreveu com a mesma finalidade.
     
Eis o epitáfio poético que Drummond escreveu para ele mesmo: 



O POETA ESCOLHE O SEU TÚMULO



Onde foi Tróia, 
Onde foi Helena,
onde a erva cresce,
onde te despi,

onde pastam coelhos 
a roer o tempo,
e um rio molha
roupas largadas,

onde houve , não 
há mais agora,
o ramo inclinado,

eu me sinto bem 
e aí me sepulto 
para sempre e um dia!



E eis o epitáfio poético que o poeta Joanyr de Oliveira escreveu para ele mesmo:



EPITÁFIO



Os casulos do silêncio
recolhem meu rosto,
meu canto e meu nome.
Entre arcanjos e estrelas,
minha essência navega
o esplendor dos milênios.
Doce é o sabor do infinito. 


Quão diferentes são os cristãos diante diante da morte! Quão diferentes foram os sentimentos que levaram o salmista a escrever estas palavras:


“O Senhor, tenho-o sempre à minha presença; estando ele à minha direita não serei abalado. Alegra-se, pois, o meu coração, e o meu espírito exulta; até o meu corpo repousará seguro. Pois não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção. Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra delícias perpetuamente”, Salmo 16.8,11.

Os que sentem, pensam e se posicionam na vida como Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt e Carlos Drummond de Andrade, tiveram o seu destino descrito pelo salmista:
“Como ovelhas são postos na sepultura; a morte é o seu pastor; eles descem diretamente para a cova, onde a sua formosura se consome; a sepultura é o lugar onde habitam”, Sl 49.14.
Porém, os que têm a fé que norteou a vida e conduziu para os mistérios da morte o poeta Joanyr de Oliveira, podem dizer, à semelhança do salmista: 

“Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tornará para si”, Salmo 49.15.

Para mudar um pouco o tom lúgubre e sepulcral desta postagem, e para satisfação dos leitores da bela e genuína poesia, publicarei como encerramento deste artigo, um dos poemas de Joanyr que eu mais gosto, o CANTARES VII, Filha do Rei:



Os teus passos, filha do Rei,
acariciam a face translúcida
do dia, os caminhos, os campos.



Teu andar se harmoniza
com o mar e os pássaros,
em louvações perfeitas.



O imaculado corpo, teu corpo,
Estende-se ao longo da paisagem,
bendizendo os ofícios do Sol.



Nas têmporas do monte,
teus olhos equilibram as águas
construídas em meigo azul.



Ramos ataviam as alturas.
A cabeça nívea, serena.
A cabeleira flutuante no tempo,



O esquio porte, de palmeira.
Espargem teus cachos na Terra
taças de unções indizíveis.



Tens aroma – que estremecem e inebriam
as várias colunas da noite,
porque beijas o soluço e a dor



e os transmudas em flores.
Bem-aventurados teus filhos,
ó vero amor de delícias!



Sobre as piscinas de Hesbom,
deslizando as saudades antigas,
mosto de romãs, perfumes.



Bem-aventuradas tuas sandálias
sob a altiva torre do Líbano,
e as frontes iluminadas do Eterno!


Post-Scriptum

Meu caro poeta pastor escritor editor pregador Jefferson Magno Costa (também sem vírgulas. Não são fragmentos. São unidade).

Agradeço-lhe a gentileza da autorização para reproduzir o seu ensaio sobre a poesia do saudoso Joanyr de Oliveira, com o devido credito e citada a fonte.

Pena que nem todos - embora possam ter lá os seus rasgos poéticos - conshigam valorizar a poesia como uma arte na qual, mais do que na prosa, se pode descer a profundidades, sem nunca chegar ao mais profundo - sempre há mais profundezas - que nos deixam embevecidos e surpresos pelo primor das pérolas encontradas.

Eu e você fomos "aprendizes" com (e de) Joanyr de Oliveira. Convivemos ao seu lado por algum tempo. Quantas vezes ele copidescou os nossos textos e nos ensinou a evitar os adjetivos, a estilizar, a frase, o período, a olhar as palavras com os olhos de artesão etc., etc. Tive a gratíssima honra de prefaciar uma de suas obras - Entre os Vivos e os Mortos - onde revelou também o seu pendor como romancista. Citei-o na minha obra: "A Transparência da Vida Cristã" pelo que representou para o meu aprendizado. Sem orgulho (mas orgulhoso) digo: tivemos um excelente mestre!

De tempos em tempos, revisito a prosa e os poemas do grande escritor. O seu nome é digno de constar em qualquer galeria dos grandes poetas brasileiros. Chegou a ser verbete da Delta Larousse. Joanyr de Oliveira foi o maior intelectual assembleiano. Ninguém ainda o superou.

Além disso, era homem comprometido com os valores do Reino, com as causas justas, com a solidariedade, com a ética, com a pureza da Igreja, com a dignidade do pastoreio, com os simples e contra toda sorte de opressão, inclusive religiosa. Talvez, por essas razões, o sistema muito tenha lutado para preteri-lo. Mas cumpriu a sua missão sem abrir mão de convicções, que, talvez, 25 anos antes de sua morte, lhe tenham inspirado a escrever este que foi um de seus grande poemas, Despedida, talvez, no qual o céu suplanta quaisquer outras perspectivas terrenas, muitas vezes frustrantes e impregnadas de perigosas sombras.

Joanyr de Oliveira termina a primeira estrofe com uma pergunta sobre como os seus poemas seriam lidos no futuro:

Quem os dirá algum dia
Na placidez destas ruas?

O tempo é inclemente e insiste em apagar o passado. Mas aqui e ali, "na placidez destas ruas" ainda ouviremos dezenas de vezes que "Deus espraia o mel da sua voz".

Geremias do Couto

2012: chegamos mesmo ao fim do mundo?


Uma rápida olhada na história da Igreja revela que ela tem sido marcada por ênfase doutrinárias distintas ao longo de sua peregrinação. Os cristãos primitivos, por exemplo, tinham em alta conta a esperança do segundo advento de Cristo e muitos nutriam essa expectativa para aqueles dias.

Até mesmo quando Paulo trata das questões do casamento, em sua primeira carta aos coríntios, pressupõe o segundo advento (e fatos conexos) como algo que os interessados em contrair matrimônio não deveriam jamais relegar ao plano secundário, mas tê-lo em devida consideração em suas decisões conjugais, 1 Co 7.29-31.

A tônica das duas cartas de Paulo aos tessalonicenses é justamente sobre o segundo advento. Ao mesmo tempo em que mantém viva a esperança, o apóstolo corrige alguns equívocos em relação a essa doutrina singular do cristianismo, posto que, para muitos, ali, parecia que este evento teria sido já consumado.

Diferente das observações feitas aos coríntios, que pareciam pôr as questões da vida material como prioridade, o propósito paulino aqui era evitar que aqueles crentes, de um lado, se perdessem na vã idéia de que o evento se consumara, e de outro, adotassem postura alienada quanto a outros aspectos importantes da vida cristã, como se nada mais restasse senão aguardar o glorioso momento, 1 Ts 3.13-18; 2 Ts 2.1-3 (ARA). Mesmo assim, na primeira carta aos tessalonicenses, na forma em que escreveu, Paulo admite a possibilidade de estar entre os vivos por ocasião do segundo advento.

O fato é que outras ênfases doutrinárias surgiram nos séculos seguintes. O período posterior à ascensão de Constantino ao trono imperial foi marcado pela discussão trinitariana. Por cerca de 100 anos o tema ocupou as lides teológicas até que ficasse bem estabelecido o dogma da Trindade.

Esses diferentes enfoques, de uma época para outra (e de um lugar para outro, com frequência), podem ser explicados à luz das peculiaridades de cada momento histórico e de outras situações motivadoras que ensejam aos cristãos apegar-se a algum valor doutrinário que interaja com as expectativas próprias de cada período.

Essa é, portanto, a forma pela qual pode ser vista a crença firmemente arraigada entre muitos cristãos primitivos de que Cristo voltaria em sua geração. Era fruto, em primeiro lugar, de estarem próximos da época em que o Mestre viveu entre os homens. Os seus ensinamentos ainda estavam bem vívidos na mente dos fiéis. A promessa de que voltaria outra vez não estava num horizonte distante. Ainda podiam ouvi-la ressoar em seus ouvidos.

Outra razão tinha a ver com as intensas perseguições experimentadas pelos cristãos. Eles alimentavam a esperança de que o aguardado encontro com o Salvador fosse o glorioso desfecho para aquele inimaginável sofrimento. Tinham como certo que o segundo advento os livraria da tormenta. Tal como os heróis do Antigo Testamento, que morreram sem ver consumada a promessa da redenção, mas nem por isso perderam a fé, assim eram os crentes primevos: a esperança da restauração de todas as coisas estava cimentada em seus corações.

Já o enfoque trinitariano, nos idos do terceiro para o quarto século, foi o resultado da progressiva sistematização da ortodoxia teológica com o propósito de conter o avanço dos ventos heréticos. Era preciso dar consistência aos ensinamentos da Igreja, que alcançara as fronteiras do império romano e entrara numa era de ampla liberdade. Em contrapartida, deixara para trás uma fé simples e centrada na esperança do segundo advento.

A questão escatológica entrou outra vez em cena com cores fortes por volta do ano 1000. A expectativa da virada do milênio, aliada a interpretações distorcidas de algumas passagens bíblicas, levou muitos a acreditarem que estava prestes o fim do mundo. A mesma ênfase repetiu-se a partir do século XIX e tornou-se mais frequente à medida que se aproximava o ano 2000. A prova disso é que as três últimas décadas do século XX foram pródigas em literatura escatológica, na legítima tentativa de se interpretarem os sinais do fim dos tempos.

Mas houve muitos equívocos. A vinda de Cristo chegou a ser marcada algumas vezes pelas seitas apocalípticas e até mesmo um pseudo-versículo encontrou eco entre os desavisados: “De mil passarás, mas a dois mil não chegarás”. Houve até quem, baseado numa interpretação esdrúxula da visão que teve Daniel dos quatro animais, construiu um acróstico, com a primeira letra em português do nome de cada um deles, para afirmar que Lula era o anticristo.

A chegada do terceiro milênio trouxe outros enfoques, como fruto do labor teológico, para responder os desafios da pós-modernidade. É necessário, todavia, que uma coisa fique bem clara: nenhuma doutrina pode ser tratada de forma isolada do contexto das demais doutrinas bíblicas sob pena de perder o seu verdadeiro foco e gerar toda sorte de distorções.

Agora mesmo, o ano de 2012 traz uma série de expectativas desse gênero, como resultado da interpretação desastrada da “profecia” dos maia de que neste ano ocorreria o fim do mundo. Há diversos movimentos, ditos cristãos, mas de natureza heterodoxa, com previsões alarmantes para os próximos meses.

O “Creciendo em Gracia”, cujo fundador, José Luís de Jesus Miranda, considera-se a encarnação do Messias e, ao mesmo tempo, o anticristo, afirma que 2012 é o ano da transformação, em que o mundo se tornará “num autêntico paraíso", com data prevista para acontecer: 30 de junho. Já o movimento “Salvai Almas”, que se diz católico, fala de colapsos devastadores, que teriam início a partir de 23 maio, com a morte de mais da metade da população mundial antes do advento de Cristo, enquanto o Lar Lokkon Shôjo anuncia que “um tsunami irá inundar todas as cidades litorâneas do mundo... com dois terços da terra debaixo d’água” (veja aqui).

Como nos portarmos diante de “profecias” tão alarmantes, sem cair no ceticismo em relação à própria revelação bíblica, ou, por outro lado, sem nos tornarmos paranoicos em relação à própria vida?

Cabe ressaltar que o segundo advento continua sendo a maior esperança da Igreja  o ápice de sua peregrinação histórica. É o coroamento de sua marcha desde o Pentecostes como agente do Reino de Deus na Terra. Isto não significa valorizar o segundo advento acima de outras verdades das Escrituras. Quem poderá, por exemplo, ter a garantia do encontro face a face com Cristo sem que primeiro passe pelos rudimentos da doutrina da salvação?

Mas o segundo advento não pode ser tomado como instrumento de pavor e alienação. Não pode ser instrumento de opressão religiosa. Não pode ser tratado com o sensacionalismo com que muitos escatólogos o tratam. Não pode tornar-se meio para servir aos interesses comerciais da hora em que filigranas teológicas são alçadas à condição de verdade absoluta e se perde o cerne da própria mensagem: a promessa de que, com a intervenção de Cristo, a história chegará ao ápice, com a restauração de todas as coisas.

O segundo advento é, portanto, certeza de descanso e segurança, e não instrumento para impor medo e manipular os fiéis. É mensagem positiva, e não negativa. É assegurar-se de que não é necessário entrar em pânico quanto ao amanhã. É ter como certo não precisar sair atrás de sensacionalismo, da especulação escatológica, à procura de “chifre em cabeça de cavalo”, com achados absurdos que não passam de fruto da imaginação criadora das pessoas. É ter a tranquilidade de não se alienar do mundo e viver segundo a mesma perspectiva de Cristo, que disse: “Meu pai continua trabalhando até hoje, e eu também estou trabalhando”.

Embora Eliseu ouvisse os filhos dos profetas anunciarem que Elias logo seria arrebatado, ele não se moveu atrás, mas seguiu em sua jornada até o rio Jordão. Ao retornar pelo mesmo caminho, após a singular experiência que presenciou, os mesmos filhos dos profetas lhe disseram que procuraria nas montanhas o "espírito" de Elias. Eliseu outra vez não se moveu. Ele estava seguro em sua fé e tinha a dimensão exata do que acontecera.

Em outras palavras, quem vive sob essa perspectiva, está seguro de sua fé, não se alarma com prognósticos sombrios ou mirabolantes, mas está de “malas prontas” para encontrar-se com Cristo no dia que se chama hoje.

Se esse dia ocorrer em 2012, não terá sido por causa de nenhuma profecia de qualquer um desses aventureiros. Terá sido em cumprimento à Palavra de Deus. Se não, também não perderemos a esperança: o dia chegará, segundo o que o Pai determinou em sua própria agenda.

Minha saudação natalina em forma de poema


Do tempo e da Luz

Deus esculpe o tempo,
Esculpe também a profecia,
De Nazaré a Belém, há um hiato.
O censo é o meio, Roma se curva,
A destra do Augusto
É a mão do Eterno.

Tropéis avançam sobre a aridez,
A Luz dormita no ventre
Da bem-aventurada mulher
Que sacoleja no dorso,
Enquanto a poeira lhe cobre o rosto
E as pedras reverenciam o Rei.

Hospedagens não a acolhem
Da noite que esparge trevas,
Da angústia que golpeia os minutos.
Mas quem esculpe o tempo,
Providencia-lhe a estrebaria,
E a Luz emerge na manjedoura

23/12/2011

Convenções paraenses pedem CGADB em Belém


Essa foi a notícia menos esperada do ano em âmbito assembleiano. Mas acabei de recebê-la por email nesta madrugada, com os fac-símiles das cartas-convite. Por muitas razões que não precisam ser comentadas, acredito que a maioria dos pastores, senão todos, não tinham condições de admitir tal possibilidade. Mas aconteceu. 

A CIMADB (Convenção da Igreja-Mãe) e a COMIEADEPA (Convenção do Estado do Pará) se articularam entre si e formalizaram convite à Mesa Diretora da CGADB para que a próxima Assembleia Geral da CGADB em abril de 2013 seja realizada em Belém. E agora? Como a Mesa Diretora decidirá? Afinal, o óbice que poderia existir - a falta de apoio de um dos lados - já não prevalece. Ambas as convenções concordam e apoiam. Vamos aguardar os próximos desdobramentos. Veja, a seguir, o fac-símile de ambas as cartas:






Ceia no Rio encerra celebrações do Centenário


A postagem ficou longa, mas para compreendê-la é preciso ler até o fim.

Participei no sábado, 3 de dezembro, como convidado, da Ceia do Centenário das Assembleias de Deus no Brasil, promovida pela AD de Madureira e as igrejas a ela filiadas no Rio de Janeiro. O convite foi extensivo às convenções vinculadas à CGADB no Estado, das quais somente a CEADER enviou representante: pastor Francisco Libório. Estavam presentes diversos líderes denominacionais, além de alguns políticos evangélicos de praxe, dos quais, propositadamente, omito os nomes. O HSBC Arena, na Barra da Tijuca, com espaço para até 18 mil pessoas, lotou e exigiu que os portões fossem fechados, com o retorno de cerca de 80 ônibus aos seus locais de origem sem que os irmãos pudessem entrar, segundo os organizadores. Creio que este tenha sido o último evento de celebração do Centenário, embora não tenha constado, digamos, da programação "oficial". A da CGADB/CPAD.

Comungar ao mesmo tempo da Ceia do Senhor com milhares de crentes que nada têm a ver com as questiúnculas institucionais foi um momento singular. Afinal, o mover do Espírito suplanta os nossos engessamentos eclesiásticos e alcança corações que se reúnem para adorar a Deus em espírito e em verdade, embora as suas lideranças muitas vezes não demonstrem o mesmo sentimento e prefiram guerrear entre si. Entre os cânticos, um deles me foi especial. Sempre o cantei desde a minha infância e jamais me sai do coração. É o 453 da Harpa Cristã, de autoria de Emílio Conde: "Oh, como é bom dos tempos primitivos lembrar". Não me arrependo de ter participado.

Mas devo confessar que passei toda a celebração inquieto. Sentia agigantar-se dentro de mim a indignação que, não tenho dúvida, movia os profetas do Antigo Testamento. Estive a ponto de explodir, mas serenei os ânimos e me contive. Enquanto transcorria a programação, pensava cá com os meus botões que tudo poderia ter sido diferente, se, lá atrás, a CGADB, através de seus diretores, sobretudo o presidente José Wellington Bezerra da Costa, aceitasse as sugestões que lhe foram dadas e compreendesse que o Centenário era de todos os assembleianos e não apenas de um segmento. No Rio, teríamos de encontrar outro local. O HSBC Arena seria pequeno, como ocorreu em 1961, aos meus sete anos, por ocasião das comemorações do cinquentenário, em que o maracanãzinho não comportou a multidão que afluiu sob a liderança de líderes como Paulo Leivas Macalão, Túlio Barros Ferreira, Cícero Canuto de Lima e até com a presença do próprio Daniel Berg.

O meu espírito agitou-se ainda mais quando as palavras do pastor Samuel Ferreira, da AD do Brás, SP, ecoaram no HSBC Arena, ouvidas por milhares de pessoas, que podem confirmar, se quiserem, o que foi dito. Informou ele ter procurado o presidente da CGADB para que juntos - o Belenzinho e o Brás - fizessem a comemoração do Centenário em São Paulo. Mas não teria encontrado eco, razão pela qual ambos os ministérios estiveram em trincheiras diferentes no dia 15 de novembro. O Belenzinho no Pacaembu e o Brás na Arena Barueri. Mas o pior vem agora: ele acrescentou em tom de ironia que em São Paulo o Governador Geraldo Alckmin seria mais forte do que Jesus, pois era capaz de reunir ambos - José Wellington e Samuel Ferreira - em torno da mesma mesa, enquanto o Senhor não os unia por sua causa. Confesso que, para mim, foi o fim da picada. Estremeci em minha cadeira!

O pastor Silas Malafaia também não perdeu a chance. Em sua rápida mensagem sobre a multiforme sabedoria de Deus, com a qual justificou de maneira correta e com boa exegese a existência de diferentes denominações, disse que ele "metia bordoada" no Bispo Macedo, mas que eximia a IURD por ser ela parte do Corpo de Cristo. Ou seja, não se mexe com a Igreja. E arrematou, citando suposta conversa com um diretor da Globo, a quem teria dito: "Falem mal do Macedo, mas não falem mal da IURD". Frase que permite muitas leituras, entre elas a de que o pastor Silas Malafaia poderia estar cometendo o mesmo erro de Caio Fábio no passado ao supostamente associar-se à vênus de prata no seu combate ao Bispo e, por consequência, à Record, o que explicaria o modo como a Globo adula cada vez mais os evangélicos nos últimos tempos, o que vejo como mera ilusão! Não que a Record mereça algum crédito. Para mim, ambas estão no mesmo saco.

Procurei manter sereno o meu espírito até porque dali a pouco participaríamos da Ceia do Senhor. Mas me sentia como um vulcão. E não era para menos. Nessa altura martelava em minha mente o último vídeo (veja aqui) que circula nas redes virtuais, dando conta que a parceria entre o Bispo Manoel Ferreira e o Rev. Moon se teria consolidado. Para quem, lá atrás, num programa apresentado pelo pastor Samuel Ferreira, afirmara que não tinha laço algum com o líder da Igreja da Unificação, o evento realizado na AD de Brasília, DF, no mês de outubro, onde se encontra a sede da CONAMAD, em parceria com a fundação presidida pelo filho de Moon, é uma afronta ao verdadeiro Evangelho de Cristo e expõe de forma crua os laços entre o Bispo e o Rev. Moon. As cenas são claras. Ora, a mensagem que o líder da Unificação prega, a proposta que difunde, não é cívica, política ou social, mas de natureza religiosa. Eis o resumo da ópera: Jesus fracassou, ao morrer na cruz, e Moon foi incumbido de completar a obra mediante a formação da "família sob Deus", da qual ele e a esposa seriam os pais verdadeiros. O projeto tem prazo de validade: 13 de janeiro de 2013.

Há alguns anos. o Rev. Moon tentou dar o seu primeiro bote entre os evangélicos, quando convidou muitos líderes para participar de um Congresso realizado no Uruguai, entre os quais vários pertencentes às Assembleias de Deus. Quando tomei conhecimento do fato, uma dúvida assaltou o meu coração: embora fosse o chefe do Setor de Jornalismo da CPAD, me seria difícil denunciar o fato no Mensageiro da Paz. O que fazer? Entrei em contato com o editor da revista evangélica Vinde, jornalista Jorge Antonio de Barros, hoje no O Globo, e passei-lhe o "furo". A reportagem foi matéria de capa e ajudou naquele momento a desmontar a estratégia incipiente de atrair os evangélicos brasileiros para a órbita do Rev. Moon. Mas ela voltou com força através desta aliança.

Desfruto da amizade do Bispo. Tenho imensa vontade de tratar desse assunto com ele de forma pessoal. Não tive a oportunidade. Por outro lado, não pertenço ao ministério de Madureira. Mas acho que os pastores que o cercam não deveriam omitir-se. Verdadeiros amigos buscam livrar o amigo do precipício. É hora de criar coragem, perder a timidez e não se deixar levar por caprichos humanos. Com temor e tremor afirmo: o que está em jogo aqui não é nem mesmo a instituição, mas a própria vida espiritual do Bispo. Não é hora de protelar, pois a linha divisória entre a fé e a perdição está a um passo. Beira à apostasia. No vídeo anuncia-se que o próximo evento, conhecido como Global Peace Festival, será em Goiânia, GO, em 2012. Creio que os pastores ligados à Madureira naquela capital deveriam desde já tomar posição firme de rejeitá-lo sob pena de virem a ser parte de uma mesa que nada tem de Cristo. Por outro lado, trato da questão de forma pública, porque o evento foi público e sua divulgação também tornou-se pública.

Foi nessas condições que cheguei ao clímax da celebração: a Ceia do Senhor. Como afirmei logo no início, embora machucado em minha alma, participei com os meus milhares de irmãos que lá estavam por serem eles apenas ovelhas que não respondem pelos atos de seus líderes e terem sido alcançados pelo evangelho por dois homens simples, Gunnar Vingren e Daniel Berg, os quais não tinham outras pretensões a não ser anunciar que Jesus salva, cura, batiza no Espírito Santo e voltará para levar a sua Igreja. Pela mesma fé que nos une, comi o pão e bebi o cálice como memorial da morte e ressurreição do Senhor até que ele venha. E tomei o rumo de casa.

Mas sentia-me triste. Embora diversas celebrações do Centenário tenham sido realizadas nas diferentes regiões do país e a própria Igreja-Mãe promovesse uma semana memorável na data dos 100 anos; embora a Ceia do Senhor que acabava de ser celebrada reunisse milhares de pessoas aos pés de Cristo, sentia-me triste porque deixamos passar, por nossas vaidades, por nossa presunção, por nossa inflexibilidade, a grande oportunidade histórica de mostrar a pujança do movimento pentecostal no Brasil, com uma comemoração que celebrasse a unidade. Perdemos o trem da história. Embora creia na soberania de Deus, foi uma noite de angústia.

Todavia, já no domingo, dia 5 de dezembro, enquanto estava assentado no sofá da sala de nossa residência, olhei para a estante e me deparei com um troféu que ganhara no dia 30 de abril, em Acreúna, GO, quando ali estive, ao lado do pastor Elienai Cabral, para ministrar numa Conferência de Escola Bíblica Dominical naquele fim de semana em que a igreja promovia também uma comemoração regional do Centenário. Para a minha surpresa, percebi algo que até então não havia notado: entre as fotos de Gunnar Vingren e Daniel Berg, por cima da logomarca dos 100 anos, aparecia também transparente a minha foto. Fiquei espantado. Olhei mais algumas vezes, mostrei à minha esposa e confirmamos que se tratava mesmo da minha fotografia. É óbvio que nos troféus oferecidos aos demais homenageados, com o apoio da CADESGO, deve constar também a foto de cada um. Mas no meu caso, a descoberta apenas um dia após o encerramento do ciclo das comemorações do Centenário teve caráter especial. Foi como se Deus dissesse: "O seu trabalho, ao lado de tantos outros na blogosfera, que encamparam a campanha em favor da unidade no Centenário, não foi em vão, embora não tenha aparentado nenhum fruto. Mas no tempo certo esses frutos aparecerão". Descansei no Senhor. Fiquei em paz, e à noite, mercê de Deus, pude pregar uma das mais poderosas mensagens entre as que preguei durante 2011.

Essa é a razão pela qual ilustro a matéria com a foto do troféu que ganhei em Acreúna, onde aparecem também, de um lado, o missionário Eurico Bergstein, e de outro, o pastor Cícero Canuto de Lima. Na parte de baixo aparecem os pastores vinculados à CADESGO. Vou guardar o troféu com muito carinho.

PS 01: O pastor Samuel Câmara representou a Igreja-Mãe na Ceia do Centenário.


PS 02: Uma das grandes contribuições dos blogs é expor o que muitas vezes a história "oficial" omite.

PS 03: Neste fim de semana volto à Acreúna com essa alegria no coração para ministrar na Escola Bíblica de Obreiros.
 
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