segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Que atire a primeira pedra

Crédito: Célio Nunes
Um dos versículos mais usados contra aqueles que combatem as heresias e outros tipos de erros no meio cristão é o de João 8.7: "Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra nela". Parece que basta citá-lo de forma isolada para impedir que se faça qualquer exposição sobre as atitudes contrárias aos princípios bíblicos praticadas por pessoas que fazem de tudo para acobertar os seus atos pecaminosos. Como mencionei em meu perfil no Facebook, é "uma anomalia desesperadora", que chega a ser um anacronismo hermenêutico, visto que despreza todo o contexto na interpretação.

Como também afirmei na mesma postagem, "uma 'regrinha' básica de interpretação diz que para se aplicar um texto aos dias de hoje ou a uma situação contemporânea, necessita-se primeiro saber em que contexto foi dito ou escrito, bem como o significado pretendido pelo autor. Portanto, antes de disparar versículos isolados, que tal olharmos primeiro o que eles significam à luz do contexto em que estão incorporados?". É à luz disso que gostaria de analisar em poucas palavras o tão propalado versículo abusivamente citado na hora em que alguém é confrontado em alguma falta.

Em primeiro lugar, os doutores da lei - escribas e fariseus - tinham a intenção de pegar Jesus em uma armadilha, qual seja a de descumprir a legislação mosaica, para poderem, então, acusá-lo de traição à fé judaica. Portanto, ao se dirigir daquela forma aos acusadores da mulher apanhada em adultério, essa era a perspectiva que o Mestre tinha em mente: a intenção maléfica engendrada pelos ditos representantes da lei.

Em segundo lugar, faltou, no episódio, a presença da outra parte, que, pelo sistema legal, deveria sofrer a mesma punição: o apedrejamento. Em outras palavras, não estava havendo imparcialidade na acusação. Por quê? Estaria ele sendo "protegido" pelos doutores da lei? Teria escapado? O que estaria por trás dessa ausência? Seria ele um dos membros do grupo de escribas e fariseus? São conjecturas. O certo é que, como parte, não foi trazido juntamente com a mulher acusada. 

Em terceiro lugar, quando Jesus sugeriu que quem estivesse sem pecado atirasse pedra na mulher não quer dizer que ele concordasse com o pecado dela, mas tal sugestão nos leva, pelo menos, a duas conclusões: a) como judeu, cumpriu a exigência da lei ao propor que fossem adiante. Ou seja, desvencilhou-se de imediato da armadilha farisaica. Mas não deixou de ser justo, quando os pôs no mesmo barco da pecadora: "Aquele que de entre vós está sem pecado", e b) ao mesmo tempo, expôs os propósitos maus dos doutores da lei, que certamente estariam incorrendo nas mesmas praticas que condenavam, mas se "protegiam" uns aos outros mediante o "poder" que dispunham. 

Em quarto lugar, ao despedir a mulher, já que os escribas e fariseus não estavam em condições morais para cumprir o preceito legal, Jesus deixou claro o que pensava, disposto a atraí-la ao Reino com a sua bendita graça. Ele não afirmou: "Siga em frente e viva a sua vida" ou "Vá e se divirta à vontade", mas vaticinou de forma explícita: "Vai-te, e não peques mais". É óbvio que encontrou arrependimento naquele coração humilhado e despedaçado diante dos representantes da religião. 

Em quinto e último lugar, eu diria que o texto seria melhor aplicado àqueles que escurraçam as ovelhas, quando elas pecam; àqueles que, como tiranos, não restauram as suas feridas, não as fortalecem, mas preferem esmigalhá-las sob os pés; àqueles que, pelo "poder" que têm, protegem-se uns aos outros de seus pecados e vivem em rasgada hipocrisia diante da religião professante. É a esses que o texto deve ser endereçado, que não têm escrúpulos até em matar as ovelhas, mas querem misericórdia, quando são apanhados nas mesmas faltas.

É simplesmente isso.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Devem as igrejas pagar impostos ao Estado?




Comentei em meu perfil no Facebook sobre a minha posição favorável a que as igrejas paguem impostos, na forma da lei, por entender que isso ajudaria a tornar mais transparentes as suas contas e por compreender que a elas não cabem quaisquer benesses concedidas pelo Estado. É óbvio que o tema é polêmico. Há quem concorde. Há quem discorde. Bem, aqui vão as principais razões, por partes, pelas quais entendo que esse privilégio deveria ser revisto.

1) Impostos existem desde tempos imemoriais e, sejamos sinceros, nenhum de nós gosta de pagá-los. É algo que fazemos com certa contrariedade, principalmente quando se trata de cobranças escorchantes. Mas são eles que dão ao Estado condições de assistir aos contribuintes naquilo que lhe compete. Ou seja, a discussão não busca avaliar se são ou não mal aplicados, mas parte do princípio que eles são indispensáveis para o funcionamento da máquina pública. Se isto não vem sendo feito a contento é outra história. Cabe a nós, eleitores, melhorarmos a qualidade do nosso voto. Portanto, acho que esse não é um bom argumento para justificar a isenção tributária das igrejas.

2) Mas voltando apenas aos tempos do Novo Testamento, vemos a menção ao tributo, quando os fariseus usam-no como isca para tentar apanhar Jesus numa armadilha. O Mestre soube sair do "laço" de forma sábia, como não poderia deixar de ser, sem deixar de reconhecer que, se a moeda circulante pertencia ao Império Romano, a ele caberia receber os impostos devidos, Mateus 22.17-22. Ele mesmo, certa vez, cumpriu de forma miraculosa essa obrigação: pagou os seus impostos, Mateus 17.24-27. Mais tarde, já no período dos primeiros dias da igreja, Paulo não só reconhece a instituição divina da autoridade, como também se reporta ao dever cívico de pagar tributos em ambiente onde os cristãos eram perseguidos pelo poder dominante, Romanos 13.1-7. Em outras palavras, o pagamento de impostos ao Estado é chancelado pela Escritura.

3) Certamente, dirá alguém: "Naquela época não havia templos cristãos de modo que não houve nenhum ensinamento bíblico a respeito". É verdade. Mas também não convém esquecer que os templos entraram na história do Cristianismo com a constantinização da igreja, nos idos dos anos 300 DC. Antes, os que professavam a Cristo reuniam-se em casas, catacumbas, às escondidas, sem nenhuma benesse do Estado. Não podemos deixar de ressaltar que no ambiente neotestamentário o templo perde a sacralidade que tinha no Antigo Testamento. Tanto Jesus corrobora a tese (João 4.20-24) como Estevão sofre o martírio por tocar em vários pontos nevrálgicos para os judeus, entre eles a sacralidade do templo em Jerusalém, Atos 7.44-50. Pois é aqui que reside o problema.

4) Ora, com o advento do Cristianismo como religião oficial do Império Romano, a partir da conquista do trono imperial por Constantino, a igreja passa a desfrutar de privilégios, como a isenção de impostos, o pagamento de seus clérigos pelo Estado, a ascensão de muitos cristãos a cargos de destaque na estrutura de governo, além da incorporação dos templos para os cultos, alguns deles "sequestrados" dos cultos pagãos por ordem do Estado, algo que não ocorria até então. A história é pródiga em mostrar que essa aliança só foi ruim para a igreja. Não preciso descer aos pormenores. Vale dizer apenas que todas essas "vantagens" tiveram cunho político, como algumas, hoje, só têm cunho eleitoreiro.

5) Infelizmente, continuamos com o mesmo modelo. Gostamos de construir templos imponentes, suntuosas catedrais, onde gastam-se rios de dinheiro, com a mesma aura de sacralidade repudiada no Novo Testamento. Na continuidade, pelas vias da informalidade, vê-se cada vez mais essa aliança entre a igreja e o Estado praticada em todos os níveis de governo sempre em busca de privilégios sob os mais diferentes argumentos, como, por exemplo: "O que estamos fazendo é pela causa", quando, aqui entre nós, a causa passa longe desses acordos, onde prevalecem vantagens com fins nada recomendáveis.

6) Diante do exposto, conforme a máxima de Jesus: "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", é preciso rever a nossa caminhada. levando em conta o lema da Reforma: "Uma igreja reformada sempre se reformando". A igreja deve caminhar em seu próprio leito e o Estado no seu, sem misturar as sintonias. O entrelaçamento de ambos só produz mal ao Cristianismo, como revela a História. Com isso, a igreja perde um de seus relevantes papéis: a capacidade de ser voz profética pelo comprometimento com alianças espúrias.

7) Contra o pagamento de tributos pelas igrejas, alega-se, ainda, que seria uma espécie de bitributação, visto que os seus membros já pagam impostos sobre os seus proventos. Não seria justo, portanto, as igrejas pagarem "uma segunda vez" sobre as contribuições recebidas. Mas isso não é bitributação, pois na origem não está o mesmo fator gerador. Considero inconsistente o argumento. Assim como contribuímos para a igreja, também contribuímos para outras organizações ou pagamos mensalidades e anuidades para diferentes associações, as quais, também, pagam os seus impostos, na forma da lei. Estaria, nesses casos, igualmente, havendo bitributação? De forma alguma! Pagamos como pessoa física. As entidades pagam como pessoa jurídica.

8) Assim sendo, concluo afirmando que, por simetria aos textos bíblicos já aludidos e aos exemplos já mencionados, as instituições de ofício religioso deveriam ser tributadas, levando-se em conta, por óbvio, todas as nuances que possam tornar a carga tributária justa, como, por exemplo, a isenção sobre recursos próprios que tiverem sido empregados no âmbito social e educacional. Igreja é Igreja. Estado é Estado. Quanto mais estiverem distantes um do outro, cada um cumprindo o seu papel, melhor.

sábado, 25 de abril de 2015

CGADB encerra AGO antes do previsto

Credito: Ricardo Costa - JM Notícias
Um dia antes do previsto - na programação estava marcado para o dia 24 - encerrou-se ontem à noite à 42ª Assembleia Geral Ordinária, no Centro de Convenções do Ceará, com culto onde pregou o pastor Genival Bento, de Maceió, AL. A rigor, os trabalhos convencionais ocuparam apenas dois dias - quarta e quinta - já que terça-feira só houve o culto de abertura à noite.

O dia de ontem praticamente girou ao redor da aprovação do Código de Ética e Disciplina, embora tenha sido rejeitado o pedido de filiação à CGADB de uma nova convenção de Pernambuco, formada de pastores desligados da COMADALPE, enquanto no dia anterior foi recebida a COMADELESTE, outra convenção organizada no Estado de Minas Gerais.

As discussões sobre o Código de Ética e Disciplina transcorreram dentro da normalidade, com destaque para o pastor Cláudio Dias, que conseguiu evitar a aprovação de pontos controversos, e o pastor Jônatas Câmara, que todas as vezes em que ocupou o microfone bateu na tecla que as regras deveriam ser aplicadas não só aos convencionais em geral, mas aos membros da Mesa Diretora e demais órgãos da CGADB. Tão logo disponha de cópia do projeto aprovado farei uma análise no blog.

Enquanto durou a AGO, vigiu a liminar que garantiu a entrada do pastor Samuel Câmara nas sessões plenárias, preferindo, todavia, não participar dos debates. A nota triste, para os familiares, amigos e irmãos que ficam, foi a morte do pastor Edson Guimarães, pertencente à COMIEADEPA, no Pará, presidida pelo pastor Gilberto Marques, que sofreu um acidente vascular cerebral ainda no hotel, na manhã de quarta-feira.

Corrigindo uma informação do post anterior, o relatório financeiro da CGADB foi aprovado por três dos cinco membros do Conselho Fiscal. Votaram contra os pastores Geovani Neres e Jediel Lima. Noutro post, mais adiante, manifestarei minhas posições a respeito, com informações mais pormenorizadas.

E assim se foi a 42ª AGO da CGADB. Como será 2017, com uma candidatura extemporânea já ganhando as ruas?

quarta-feira, 22 de abril de 2015

CGADB: o outro lado das plenárias de hoje

Crédito: https://www.facebook.com/cgadb
Embora mais de três mil ministros se inscreveram para participar da 42ª Assembleia Geral Ordinária da CGADB, informações extraoficiais dão conta que pouco mais de 1500 ministros compareceram ao evento, que teve o culto de abertura ontem à noite e o início das sessões plenárias na manhã desta terça-feira. É menos da metade do número esperado, o que nos permitirá, mais tarde, fazer uma leitura crítica dos motivos para esse baixo comparecimento, visto que a CGADB conta com mais de 70 mil ministros filiados.

Hoje, com expressiva maioria, foi aprovado o relatório financeiro da CGADB: 1271 votos favoráveis e 282 contrários, lembrando, apenas, que a maioria dos inscritos é do Belenzinho, que certamenta votaram a favor, acompanhados de outros inscritos em menor número de outras convenções. Vale ressaltar, todavia, que o processo não foi tão simples, como poderá parecer à primeira vista, quando for publicada qualquer reportagem oficial.

Mais uma vez o Estatuto teria sido atropelado. Caberia ao 1° tesoureiro, Ivan Bastos, fazer a leitura, mas o presidente o teria impedido, cortando-lhe inclusive o som e determinando ao contador da entidade que apresentasse o relatório. Outro detalhe é que o parecer do Conselho Fiscal pela regularidade do balanço não teria sido aprovado pela maioria de seus membros, ou seja, teria sido rejeitado, mas mesmo nestas condições o presidente da CGADB insistiu em submetê-lo ao plenário para a votação.

O pastor Samuel Câmara, por sua vez, integrado à CGADB por força de sentença prolatada em Primeira Instância já há algum tempo, teria tido o seu pedido de inscrição para participar da AGO negado. Mas uma liminar, que continua a vigir, garantiu-llhe o direito de participar das sessões plenárias. Esse, em síntese, teria sido o dia de hoje. Veremos o dia de amanhã.

terça-feira, 21 de abril de 2015

O que os pastores da CGADB farão em Fortaleza

Centro de Eventos do Ceará
A cidade de Fortaleza, CE, hospedará mais uma vez a Assembleia Geral da CGADB. Serão quatro dias dedicados aos mais variados assuntos, previstos no temário, com ênfase para a evangelização e o discipulado. Cerca de três mil pastores de todo o Brasil terão a oportunidade ímpar não só de avaliar o desempenho da AD nos últimos anos, como também buscar caminhos que a reconduzam aos mesmos patamares dos padrões primitivos de crescimento [...].

Espera-se, portanto, que esta seja a tônica dos debates, pois não é mais possível postergar um problema que se institucionaliza e pode lançar a AD no Brasil na mesma vala comum da religiosidade histórica. Isto é, um passado rico de espiritualidade, um presente de ostentação, mas uma prática hodierna sem vida, mergulhada na frieza do formalismo eclesiástico. Que a AD no Brasil não cresce, hoje, com a mesma desenvoltura da década de 50 foi, inclusive, um dos pontos da mensagem do pastor Phillip Hogan, no culto de abertura do 1° Congresso Mundial das Assembleias de Deus, realizado na Coréia [...].

Em primeiro lugar, há que se ir ao âmago da questão. Não é hora para sutilezas, superficialidades ou paliativos. É preciso ir às causas, removê-las e mudar o eixo da postura da igreja para a sua verdadeira base.

Em segundo lugar, há que se ter transparência para reconhecer o que está errado e aceitar, com humildade, as correções de rumo que forem indispensáveis. Não adianta varrer para debaixo do tapete as possíveis mazelas que obstruem a caminhada da igreja. Isto só faz tornar mais grave o problema e adiar soluções que, se adotadas agora, tornariam promissor o amanhã.

Em terceiro lugar, o peso maior cabe à liderança, a quem Deus constituiu para conduzir os rumos da AD no país. Não custa nada acrescentar que a institucionalização da igreja continua consumindo grande parte do tempo dos pastores em assuntos administrativos, articulações "diplomáticas" e outras atividades paralelas, em detrimento das causas maiores: a evangelização, o discipulado, o retorno ao altar, a vida de inteira consagração a Deus. As assembleias gerais acabam sendo, neste caso, um escoadouro dessas tensões, que passam a ocupar todo o espaço convencional. Os temas permanentes e produtivos ficam para outra ocasião...

Em quarto lugar, é preciso ouvir as vozes proféticas que se levantam, aqui e acolá, clamando pelo retorno da igreja aos padrões apostólicos. Gritos angustiantes de alerta têm sido ouvidos por toda parte, advertindo contra certos caminhos tomados, que, com certeza, levarão ao fracasso total, não havendo correção de rota.

Fortaleza poderá significar, portanto, a abertura dos celeiros de Deus sobre a AD no Brasil, desde que seja essa a perspectiva de todos os convencionais. Aí, sim, o tempo gasto nas sessões plenárias não será em vão, pois terá como prioridade as causas que farão a igreja tomar novo impulso e viver uma nova fase de vitórias em sua trajetória.

***
Com a omissão de apenas dois parágrafos, que não retiram a lógica do texto, esse é o editorial do Mensageiro da Paz N° 1293, do mês de dezembro de 1994, escrito e assinado por mim, às vésperas da AGO da CGADB que se realizaria em janeiro de 1995, na cidade de Salvador, BA. Para os dois objetivos que tenho em mente, mudei apenas o nome da cidade para Fortaleza e o número de dias previstos para a AGO. Lá foi de sete dias; na capital cearense será de apenas quatro dias.

Quis mostrar, em primeiro lugar, que os meus escritos atuais sobre a CGADB são coerentes com o que já escrevia naquela época. A diferença é que hoje desfruto de independência do sistema e posso usar de mais clareza quando exponho as minhas posições. Mas o eixo não mudou. A minha voz sempre ecoava, quando entendia que os rumos não eram aqueles. Naquela época já alertava para os graves problemas enfrentados pela CGADB.

O meu segundo objetivo é deixar claro para os pastores mais recentes que, embora fosse à época Diretor de Publicações da CPAD e responsável por escrever e assinar os editoriais do Mensageiro da Paz, jamais fui de me omitir em expressar a realidade que vivíamos, mesmo que não pudesse usar cores vívidas para trazer mais transparência. Mas se você leu o editorial, deve ter percebido alusões bastante sinalizadoras, como esta, por exemplo: "Não adianta varrer para debaixo do tapete as possíveis mazelas que obstruem a caminhada da igreja".

Infelizmente, de lá para cá as coisas só fizeram piorar. Não creio também que Fortaleza trará qualquer resgate à história assembleiana.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Porque sou a favor da redução da maioridade penal


Antes de introduzir os argumentos, sou favorável que a prática de crimes seja punida independente da idade, com a devida gradação que leve em conta as circunstâncias na consecução do ato. Como a proposta aprovada pela CCJ da Câmara dos Deputados, sem caráter terminativo (tem de percorrer, ainda, um longo processo para que, em sendo aprovada, receba a sanção - ou não - do Executivo), prevê apenas a redução da maioridade penal para 16 anos, conta com o meu apoio irrestrito por tratar-se de meio-termo, a meu ver, entre o ideal e o possível.

Sei que a matéria é complexa e gera muitas paixões entre os que a discutem. Mas podemos, com equilíbrio, debatê-la sem desqualificar quem se opõe à tese que defendo, deixando o debate apenas no campo da argumentação. Como cristãos, não temos outra saída, senão começar pela Bíblia. Ela tem de ser o nosso ponto de partida para uma análise menos passional. Temos de considerar, também, os pressupostos com os quais a lemos. Os meus partem do conceito que ela é a inspirada Palavra de Deus, inerrante, que contém todos os princípios a serem aplicados à vida.

A primeira questão da qual não podemos fugir é a natureza decaída do homem, que atinge a todos, sem exceção. Nisso concordam calvinistas e arminianos: a depravação total. A nossa inclinação é má e muito influenciável pelas pressões do meio. Costumo dizer que, se as nossas conversas de alguns dias à noite com os nosso travesseiros ganhassem a realidade, o mundo já teria sido destruído pelo desejo de vingança que muitas vezes nutrimos em nossos corações. Crianças, adolescentes e jovens, quando chegam à idade da consciência, passam a viver o mesmo processo. Nesse sentido, não se distinguem dos adultos, embora os seus conceitos de vida possam, ainda, não estar bem cristalizados. Ou seja, é a natureza decaída que resulta nos atos mais perversos do ser humano.

Outro ponto a considerar é que Deus instituiu a autoridade, entre outras razões, como uma espécie de "freio" para a maldade do homem. Romanos 13 não discute o mal uso que se faz dela, mas a sua finalidade. O propósito, como bem diz o texto, não é aterrorizar quem pratica as "boas obras", mas punir os que fazem o mal. As leis, portanto, não têm em si mesmas o poder "gracioso" de restaurar as pessoas, mas de puni-las, caso violem o que elas preceituam. Quem incorre em sua violação, só estará "livre", do ponto de vista legal, após cumprir a sentença imposta. Esperar que transformem o mundo num "paraíso" isento de maldade, é não compreender a natureza das leis e nem a natureza decaída do homem. Elas, em tese, existem para "frear" o mal, repito, mas não têm o poder de extingui-lo.

Com isto em mente, temos de compreender que leis são criadas como resultado das transformações sociais, impondo à autoridade ajustar o sistema legal às necessidades do tempo. A meu ver, se não for possível normatizar a penalização independente da idade, a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, passa a ser a solução mais adequada ao atual momento do país, onde menores de 18 anos cometem os crimes mais hediondos, são apreendidos em sistemas chamados socioeducativos, mas zeram a ficha quando alcançam a maioridade. É desse estratagema que se valem os criminosos de maioridade: não só levam os menores a praticar crimes, mas transferem a eles os seus atos criminosos como forma de se esquivarem da responsabilidade penal, já que, completados 18 anos, as anotações contra esses jovens criminosos serão apagadas. A redução da maioridade penal ajudaria a corrigir essa anomalia jurídica.

Outros há que apelam para o nosso deteriorado sistema carcerário como argumento contra a aprovação da PEC da maioridade penal. Mas a ser assim, temos de trazer de volta para casa todos os doentes internados em nosso péssimo sistema de saúde, onde muitos morrem por falta de atendimento qualificado e urgente, além de abrir as grades para soltar todos os presos pela omissão do Governo em realizar uma gestão de excelência em suas responsabilidades constitucionais. Vale, aqui, como princípio, o que Jesus disse noutro contexto aos doutores da lei do judaísmo nesta paráfrase: "Vocês são eficientes em exigir o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas se esquecem do juízo, da misericórdia e da fé. Façam estas coisas, mas não se esqueçam daquelas". Em outras palavras, uma coisa não anula a outra. Que os sistemas sejam aperfeiçoados, aprimorados, mas também se adequem as leis às necessidade do nosso tempo.

Por fim, sem esgotar o tema, por óbvio, afirmar que a aprovação de tal lei significa decretar a falência da igreja em seu papel restaurador soa falacioso. A prevalecer o raciocínio, teria falhado, também, em relação aos adultos, pois há muitos encarcerados que se chamam Daniel, Eliseu, Isaías, Ezequiel, Lucas, Tiago e outros nomes bíblicos, os quais foram dados por seus pais a esses prisioneiros sob a influência da fé cristã. O que precisamos é aprender a separar o papel do Estado do papel da igreja. Apenas como exemplo, a conversão de alguém na cadeia, embora acerte a sua vida com Deus, não serve de atenuante e não o livra de cumprir a sentença, segundo o que está normatizado em nosso sistema jurídico. Cite-se de passagem que para uma população de cerca de 202 milhões de pessoas, conforme dados de 2014, a nossa população carcerária é de cerca de 800 mil pessoas, que representa menos de 0,5%

Sem deixar, portanto, de reconhecer que a igreja pode fazer muito mais no sentido de "fermentar" a massa e contribuir para a transformação das pessoas pelo poder do Evangelho, cabe à autoridade, em seu papel concedido por Deus, cumprir a sua missão de promover o bem e "frear" o mal com leis que punam em graus diferentes aqueles que são passíveis de sofrer o efeito da mão restritiva do Estado.

quarta-feira, 25 de março de 2015

CGADB, CONAMAD, BELENZINHO, IGREJA-MÃE: QUE SIGNIFICAM?


Há dois dias, no perfil do Facebook, me foi feita a pergunta se eu ainda estava vinculado à Assembleia de Deus, Ministério do Belenzinho. Não é a primeira vez que tal indagação me é dirigida dessa forma. Dei a resposta que julguei adequada, mas lembrei-me que há mais de um ano planejei escrever algumas poucas linhas que ajudassem os cristãos de maneira geral, especialmente os assembleianos, a entender um pouco sobre como funciona a nossa estrutura denominacional. Acabei me esquecendo. 

Mas com a pergunta de anteontem, o tema me veio outra vez à memória, pois sei que não é fácil compreender esse "hibridismo" assembleiano, recheado de siglas e nomenclaturas, tais como CGADB, CONAMAD,  CPAD, Ministério do Belenzinho, Ministério de Madureira, Igreja-Mãe etc., etc. Com o intuito de ajudar, tentarei clarificar as coisas, sem formalidade acadêmica e da forma mais simples possível. Comecemos.

CGADB é a sigla para Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, considerada o tronco da denominação, pois é consequência da história que começou em Belém, PA, no ano de 1911, e passou a existir desde 1930 para, em tese, servir de guarda-chuva às Assembleias de Deus no país, que até então tinham predominância no norte e nordeste brasileiros, expandindo-se para o sudeste só a partir de 1924. Embora se considere das Assembleias de Deus e seu estatuto contenha normas que elas devem pôr em prática, não se trata de uma convenção de igrejas, como no caso da Convenção Batista Brasileira, mas de pastores: significa dizer que ela praticamente não tem nenhum poder de interferência na vida da igreja local.

Mas onde entram os ministérios e como eles se relacionam com a CGADB? Em tempos idos, mesmo já com a existência da entidade máxima, não havia convenções estaduais organizadas. Salvo engano, a primeira a ser estruturada foi a de Santa Catarina, no ano de 1948. Outras vieram depois. O que havia eram os chamados ministérios, geralmente com a sede na capital e igrejas espalhadas pelos bairros e cidades do Estado, com um pastor presidente a cuja autoridade os demais se submetiam. Ainda hoje é assim em alguns estados do nordeste. É tanto que a CGADB reconhece não só convenções, mas também ministérios estaduais a ela vinculados.

O Ministério do Belezinho, em São Paulo, se insere nessa construção "híbrida" assembleiana e surgiu da mesma forma como os demais. Embora, posteriormente, tenha gerado a CONFRADESP - Convenção Fraternal das Assembleias de Deus no Estado de São Paulo, as igrejas a ela filiadas nos municípios são conhecidas como pertencentes àquele Ministério, com sede na capital e estrutura eclesial no município e em outros adjacentes dividida em setores. Assim, quando se fala em Ministério do Belezinho pode-se estar falando da sede e seus setores, bem como da CONFRADESP e das igrejas no âmbito da referida Convenção Estadual, com o mesmo presidente: José Wellington Bezerra da Costa.

Mas o Ministério do Belenzinho não é a mesma coisa que CGADB. Este é o ponto. São distintos. Assim como outros ministérios e convenções estaduais, ele é mais um entre os demais a ela vinculados, sem "status" privilegiado. O que provoca confusão em algumas pessoas é que o presidente daquele Ministério é, também, o presidente há 25 anos da CGADB, passando a impressão que são apenas nomenclaturas distintas para a mesma organização, o que não corresponde à realidade. Belenzinho é uma coisa, CGADB outra. Portanto, pondo os pingos nos "is", o pastor José Wellington Bezerra da Costa não é o presidente das Assembleias de Deus no Brasil, mas da CGADB, que congrega pastores de todo o país, sem que haja qualquer subordinação das igrejas à referida presidência, a não ser as do Ministério do Belenzinho por ele o presidir.

Para não estender demais o post, CONAMAD, por sua vez, é a expansão do Ministério de Madureira, que teve como fundador o pastor Paulo Leivas Macalão no bairro do mesmo nome, no Rio de Janeiro, avançando depois pelos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal. Até 1989 os seus pastores estiveram sob o guarda-chuva da CGADB, mas com a assunção de outra liderança que poderia fazer frente a certos interesses já latentes, aliada ao avanço para os estados do norte e nordeste, resolveu-se em AGO realizada em Salvador, BA, que ficariam suspensos até que se afastassem das referidas regiões e retirassem o caráter "nacional" de sua convenção. Como isso não aconteceu, Madureira passou a ser outro braço da Assembleia de Deus em nosso país e a sigla que ostenta - CONAMAD - significa Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil - Ministério de Madureira. A ela pertence a Editora Betel.

Por fim, quando nos reportamos à Igreja-Mãe, a referência é sempre à primeira igreja plantada em Belém, PA, pelos pioneiros Gunnar Vingren e Daniel Berg. Dali o trabalho floresceu em todo o Brasil e, por mais que haja quem torça o nariz, a história não pode ser mudada, a não ser que se faça como Stalin e se apaguem os fatos dos registros. Mãe nunca deixará de sê-lo. Convém ressaltar que quando se comemora o aniversário de fundação das Assembleias de Deus, não estamos falando de CGADB, mas da igreja em si mesma, cuja data é 18 de junho, oportunidade em que os pioneiros, em 1911, juntamente com irmãos desligados da Igreja Batista por causa da doutrina pentecostal, estabeleceram em Belém, PA, a nova igreja, que, inicialmente, chamava-se Missão de Fé Apostólica. Só passou a chamar-se Assembleia de Deus em 1918 por decisão de Gunnar Vingren, dos obreiros e da igreja em Belém. A CGADB ainda estava longe de vir à existência. E a CPAD, onde entra nisso tudo? Sem muitas delongas, a sigla significa Casa Publicadora das Assembleias de Deus e tem como legítima proprietária a CGADB. Ela não é de um grupo, mas da organização, assim como a Editorial Patmos, nos Estados Unidos.

Uma última informação: a quem interessar possa, sou filiado à CONFRADERJ - Convenção Fraternal das Assembleias de Deus no Estado do Rio de Janeiro, sob a presidência do pastor Temóteo Ramos de Oliveira, também vinculada à CGADB, onde sou registrado sob o número 3866.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Babilônia religiosa & Avivamento: nem tudo está perdido

Encontro das águas entre o Rio Negro e o Solimões
Embora a Babilônia religiosa exerça, hoje, forte predominância no meio cristão, não podemos ter a atitude de enterrar a cabeça na areia, qual avestruz, para não enxergar a triste realidade ao nosso redor. Não é próprio, também, pensar que, pelo andar da carruagem, não há nada mais que possa ser feito. Tudo está perdido. Mas não é bem assim. Se fosse este o caso, o sacrifício de Cristo na cruz teria sido em vão e seria melhor, então, tomarmos o caminho de volta para Emaús. Talvez até fosse uma boa estratégia, pois no meio da estrada o Senhor nos apareceria para dizer: "Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!"

A verdade é que em meio a esse caos, os lírios ainda florescem! O próprio Jesus, ao mesmo tempo em que fez a pergunta retórica, se o Filho do homem, quando voltasse, acharia fé na terra, também admitiu na mesma parábola que Deus faria justiça aos seus escolhidos. Em outras palavras, mesmo diante das coisas mais absurdas feitas em nome de Cristo, haveria milhares que não se curvariam e nem se curvarão aos deuses erigidos nos templos dos que introduziram o antropocentrismo na prática da fé cristã. Não nos deixemos sucumbir pela síndrome de Elias! Você não está sozinho. Há outros na mesma trincheira em defesa do Evangelho puro e simples.

Mas a bem do que expressa o Novo Testamento de ponta a ponta, não creio num avivamento final, que varrerá o mundo e produzirá conversões em massa, quase cheirando a universalismo, se bem que muitos defensores da tese assim acreditam. Mas não é o que lemos na Escritura e o que vemos acontecer no mundo. Ao contrário, como diz a Bíblia sobre o fim dos tempos, cada vez mais cristãos estão sendo "encurralados", perseguidos e expostos à execração pública por expressarem princípios que não se submetem à cultura mundana. Não precisamos ir longe. Vivemos já esse quadro em nosso país. Não desconheço que ao falar sobre a ação do Espírito, o Senhor usou como analogia o vento, que "assopra onde quer", mas isso não corrobora de forma alguma qualquer ideia de universallização da salvação mediante um avivamento transmundial.

É provável que a esta altura você me pergunte: Em que tipo de avivamento então o irmão crê? A minha resposta é simples e direta. Creio no avivamento bíblico. Essa foi a oração de Habacuque, nos anos que antecederam ao exílio dos judeus em Babilônia. O profeta não podia concordar com a rebelião e a apostasia do povo contra Deus, mas também não compreendia que ele usasse um império pagão para trazer severo juízo sobre a nação judaica. Parecia uma contradição à sua santidade. Foi então que se lembrou dos feitos divinos no passado em favor de seu povo e orou com a alma compungida, usando expressões poéticas carregadas de figuras de linguagem, onde a ênfase é para que Deus avive a sua obra (não a do homem), ou seja, realize de novo os seus grandes feitos, revitalize a vida de fé mediante a sua misericórdia em tempos de ira, para então concluir dizendo que, mesmo se estivesse em condições de terra arrasada ("ainda que a figueira não floresça"), continuaria a alegrar-se no Deus da sua salvação. É a fé viva contra todas as circunstâncias! Isso é avivamento.

Mas esses avivamentos do reteté, do cair no espírito sob o efeito do paletó, dos rodopios pela nave do templo, da gritaria histérica, desenfreada e babélica, dos "corredores de fogo", onde, ao final, se bebe um "cálice de água ungida", dos "recados proféticos" que se contradizem entre si, das curas prometidas que não acontecem e frustram a fé das pessoas, tudo isso em flagrante contraste com o ensino de Paulo em 1 Coríntios 12, 13 e 14, nada têm a ver com a ação ativa de Deus e não promovem nenhuma mudança de coração. São apenas espetáculo que exalta os "ungidos", sem nenhuma piedade, e os leva a usar o mecanismo para submeter o povo à opressão religiosa para lhe arrancar a preciosa lã. Quero distância desses movimentos. Quanto mais longe estiver, mais o meu coração estará livre para o verdadeiro avivamento.

À luz do que acabei de escrever, percebo que, apesar do caos, o verdadeiro avivamento está à mão dos que creem e pode ser visto entre aqueles que não cederam às pressões do panteão ególatra. É só tirarmos a nossa cabeça de dentro da areia e olharmos em volta que veremos os seus resultados. Não é algo que está no terreno do abstracionismo, mas é visível para quem acredita que Deus continua a realizar os seus feitos no mundo contemporâneo. Como costuma afirmar Hernandes Dias Lopes: "Ainda que tudo possa parecer fora de controle, Deus está no absoluto controle de todas as coisas".

Vejo, por exemplo, entre os jovens cristãos um florescimento acentuado pelo estudo da Palavra de Deus. Eles estão cansados de comer algodão doce, que só enfraquece o organismo. Já não se satisfazem com pregações inflamadas, cheias de frases de efeito, que torcem o texto bíblico a belprazer do pregador, sem consistência doutrinária alguma, além das canções "gospéis" que já não lhes atraem a alma. Por quê? Por descobrirem que estão famintos e só a Palavra de Deus os alimenta, quando os seus nutrientes são metabolizados. É prazerozo vê-los querendo saber, perguntando, trocando ideias e até mesmo debatendo de forma saudável em busca das verdades da Escritura. Tenho experimentado essa realidade em minhas viagens. Nesse avivamento eu creio!

Vale ressaltar que, quando Josias começou a reinar em Jerusalém, o Livro da Lei estava perdido na Casa do Senhor. É aí que ele precisa ser resgatado. E se isso ocorre, o avivamento chega, não como obra de homem, com hora e dia agendados, mas como obra de Deus, sem qualquer manipulação humana, sem apelos psicológicos, a partir do resgate da Escritura na vida da igreja e de cada um em particular. O resultado não poderia ser outro, senão arrependimento, confissão de pecados, perdões mútuos - não da boca para fora, mas do coração - fortalecimento da comunhão uns com os outtros, onde a necessidade do próximo é mais importante do que a nossa, vivência fervente da fé, desejo apaixonado em proclamar o evangelho onde quer que seja, aqui ou além mar, para que os perdidos ouçam e sejam chamados à salvação, enfim, o ápice do verdadeiro avivamento é a ardente paixão de amar a Deus sobre todas as coisas.

A Babilônia religiosa aí está, fazendo os seus estragos. Mas em paralelo, o remanescente fiel não entregou os pontos. Tal qual o encontro das águas do Rio Negro e do Solimões, no Amazonas, flui entre eles, ao lado do caos babilônico, a graça da vida avivada, cujo fim primeiro e último será sempre a glória de Deus.