terça-feira, 5 de março de 2013

Por que a sucessão é um problema na AD?


A enquete ao lado, já encerrada, traça um quadro sombrio sobre como tem sido a percepção dos membros de nossas igrejas quando o assunto é sucessão pastoral. Embora não tenha rigor científico, como sempre reitero, foram 575 votos das mais diferentes partes do Brasil, o que nos permite fazer uma análise bastante real da situação. Para facilitar, repito aqui os dados:

1) 355 votantes (61%) acham que o problema é o apego ao poder.
2) 138 votantes (24%) acham que é o interesse em passar para o filho ou genro.
3) 41 votantes (7%) acham que está no temor da nova geração.
4) 22 votantes (3%) acham que se trata de desconfiança do sucessor.
5) 19 votantes (3%) acham que é medo de ficarem desamparados.

Creio que os líderes de nossa igreja deveríamos parar um pouco para pensar sobre o tema, pois as nossas atitudes, regra geral, estão tendo diferentes interpretações do rebanho - bastantes desfavoráveis até - que, talvez, possam não refletir o que, de fato, vai em nosso coração, embora, em muitos casos, seja visível a predominância dos dois itens mais votados da enquete: apego ao poder e interesse em passar a titularidade do pastorado para o filho ou genro. É importante que cada um veja em que condição se encontra, sem que isso nos tire o direito de "passar a limpo" esse desafio que tão de perto nos afeta.

No primeiro item não há muito o que discutir. O apego ao poder é danoso ao rebanho e se torna uma porta larga para a prática de tantas irregularidades que - um erro aqui, outro acolá - tornam cauterizada a consciência do líder que assim lidera. Ele só se mantém no cargo pela força do seu autoritarismo ou mediante a forma verticalizada em que a liderança é exercida através daqueles que recebem benesses para sustentá-lo na "cadeira papal". É um "colégio cardinalício" oficioso dentro da igreja. O que importa é construir e manter o império. A conversão dos pecadores é apenas um detalhe. Esquecem-se que a Igreja é de Deus.

No segundo item temos de considerar duas vertentes: a primeira tem a ver com o apego ao poder. O medo de que o comando da igreja caia em mãos de terceiros faz com que logo se prepare o filho ou o genro para comandar o "grande negócio" e, assim, manter tudo dentro de casa. Mas temos de olhar o outro lado da moeda, que pouco foi citado na enquete, e tem a ver com aqueles pastores que se gastam como verdadeiros sacerdotes, mas pouco se preocupam com o futuro. Quando chega a hora de passar o cajado, o medo de ficarem desamparados os leva ao mesmo comportamento: preparar o filho ou o genro para assegurar, pelo menos, uma velhice tranquila.

Creio que os itens três e quatro acabam embutidos nos demais. De qualquer modo, o temor da nova geração sempre existirá. É um conflito permanente que só se acentua se a geração anterior não souber lidar com este processo irreversível, deixando de bem preparar os seus substitutos. A desconfiança do sucessor, por sua vez, pode ocorrer pelas razões há pouco explicitadas. Não é fácil abrir mão do poder se ele lhe traz benefícios, como também é difícil passar o bastão para alguém que, lá na frente, não terá escrúpulos em pisar sobre o antecessor jubilado. Com isso, muitas transições se tornam traumáticas e se não produzem reviravoltas maiores se deve ao fato de o povo assembleiano levar muito a sério a questão do respeito à autoridade.

Entre outras, três coisas a ponderar:


1) Bom seria se pudéssemos voltar há algumas décadas, onde a permuta de igrejas entre pastores era bastante comum. Parece utópico, mas não custa nada sonhar. Isso traz oxigenação, renova as energias, ameniza o desgaste, apresenta novos desafios e rompe com a possibilidade da eternização do pastor em um só lugar, criando para si um império particular. Cito como modelo apenas dois exemplos. O primeiro, Alcebíades Pereira de Vasconcelos, que começou no Piauí, onde passou por algumas igrejas, foi pastor em São Cristóvão, RJ, Belém, PA, e, por fim, em Manaus, AM, onde foi chamado ao descanso eterno. O outro é o do pastor José Pimentel de Carvalho, que pastoreou em Valença, RJ, foi co-pastor em São Cristóvão, RJ, dirigiu a AD da Penha, no mesmo Estado, e terminou os seus dias no pastorado da AD em Curitiba, PR. No modelo de hoje nenhum deles teria essa oportunidade. Os estatutos das igrejas, geralmente, não permitem.

2) Penso, também, que as Assembleias de Deus no Brasil precisam passar por uma reforma eclesiástica, visto que o que temos é um sistema híbrido. Numa região funciona de um jeito, noutra de outro, sem um mínimo de padronização. Muitos consideram utópica essa proposta, mas muitas coisas boas que hoje experimentamos nasceram da "utopia" de alguém lá atrás. O Novo Testamento sempre privilegiou as igrejas locais, sem essa hierarquização que hoje conhecemos. Quem dava amálgama a elas eram os apóstolos. A verticalização só começou a surgir em décadas posteriores e tomou a forma que hoje predomina na herança católica após a constantinização da Igreja. O que temos é um arremedo da mesma hierarquização, onde se começa como diácono, depois se vai a presbítero, daí a pastor, para então, tornar-se pastor supervisor e, por fim, se calhar, pastor-presidente. Sei que essas mudanças não são de curto prazo, mas acho que vale a pena começar para o bem do rebanho.

3) Entendo, por outro lado, que filhos de pastores (ou genros) não devem ser estigmatizados, como se não pudessem, também, ter a vocação pastoral. Esse é outro extremo. É óbvio que nem todos a têm e, por isso mesmo, não podem ser empurrados goela abaixo da igreja. Conheço alguns que levaram o trabalho à ruína. Ministério não é hereditariedade, como no Antigo Testamento. Mas aos que são chamados não lhes podemos negar o direito de se aprimorarem na vocação. Muitas vezes são os que menos querem, pois conhecem as lutas que o pai, como verdadeiro sacerdote, experimenta e não desejam trilhar a mesma senda. Mas quando Deus chama, não há saída. Ou obedecem ou sofrem as consequências. Em casos assim não é preciso forçar a barra porque a igreja percebe o chamado. Em outros, o filho acaba por não ficar na mesma igreja, pois Deus o leva para algum lugar distante para, ali, desenvolver a sua vocação.

Enfim, espero de coração que a enquete nos ajude, como igreja, a refletir sobre o problema da sucessão e a encontrar o equilíbrio necessário para que o rebanho sempre saia fortalecido em momentos de transição. E que tenhamos de Deus o senso de saber a hora de pararmos.

13 comentários:

Reginaldo Pereira disse...

Sobre a questão do chamado hereditário, creio que este não existe,pois caso contrário o grande Líder nacional, moisés prepararia um de seus filhos, porém ele sim preparou Josue o qual não era nem parente de longe. Se procura imitar a Moises em tantas circunstâncias, menos esse exemplo,em prejuizo do Corpo de Cristo.

Pastor Geremias Couto disse...

Meu caro Missionário Reginaldo:

Esse ponto está dito com clareza na postagem. Não há hereditariedade na chamada. Só não podemos negar aos filhos de pastores o direito de serem chamados por Deus, sem que nisso esteja envolvida a hereditariedade.

Abraços!

Nando Jesus disse...

Parabéns, pr. Geremias! Ótima análise do senhor!

Mario Sérgio disse...

Pastor Geremias:

O problema da sucessão realmente se agravou quando o mistério se tornou uma boa fonte de renda e poder. Aqui em Santa Catarina, poucos eram os filhos de pastores que se dedicavam ou se preparavam para suceder seus pais ou sogros. Mas com a expansão da igreja essa realidade mudou drasticamente. Muitos obreiros verdadeiramente chamados, não se desenvolvem, pois em seu lugar há um "outro" escolhido por um familiar próximo. O nepotismo é prática nas grandes igrejas, porém se percebe isso nas pequenas também. Como sou estudioso da história, percebo a formação de uma casta sacerdotal. Ou seja, uma classe que protege, se unifica através de alianças (casamentos entre essa casta é normal), e se protege mutuamente. Desculpe o pessimismo. Há exceções, mas o quadro piora cada vez mais.

Abraço!

MARCOS MARTINS disse...

Caro Amigo Pastor Geremias,

Em outras denominações, as mais tradicionais essa questão da hereditariedade fica excluída, exceto se o herdeiro mostrar vocação e chamada ministerial, se me permite citar a segunda sucessão na PIB/RJ foi exatamente de pai para filho,Pr.Francisco Soren falece (me parece que foi assim) seu filho Pr.João Soren assume a igreja e desenvolve um ministério de 50 anos,assumindo inclusive postos importantes na hierarquia da igreja a nível internacional. Logo a sucessão com unção e direção de Deus não importa se é filho ou não.

É o meu pensamento.

Marcos Rodrigues,Pr.

Anônimo disse...

Thiago meneghetti disse:

Amados, sou evangelista da AD e pastoreio uma congregação…conheço bem o que o nobre pastor expôe logo acima…a verticalização do poder beneficia algúns em detrimento de uma imensa maioria, que sem vez e vóz, é tratada como rebanho de ovelhas?? Não, gado…pastores que pagam pra fazer a obra enquanto algúns “edificam em alicerce alheio” e levam a fama…Este sistema injusto com certeza não agrada a Deus,mas agrada a algúns cujo deus é o ventre…
Quando isto vai terminar nas Assembleias de Deus???Egoísmo,egocentrismo,desrespeito…faltam-me palavras…
Que o Senhor nos possa ajudar…
A Paz do Senhor.

Jean Patrik disse...

Paz de Cristo pastor Geremias!

Gostaria de saber do senhor se a igreja AD no geral o seu governo eclesiástico é episcopal ou congregacional?

Eu disse em um conversa com um colega meu que pelo estatuto é congregacional, mas na pratica é episcopal.

No Aguardo...

Newton Carpintero, pr. e servo. disse...

Caro pr. Geremias do Couto,

A paz amado!

A cegueira é total diante dos interesses de líderes com os mesmos desejos do "PAPA" católico.

O desejo maior é "PAPAR" todo o poder possível, para que possam MANDAR como querem e onde querem.

O poder humano e carnal tem destruído aos muitos que, insanamente esqueceram da igreja de Deus e procriaram a sua própria igreja familiar familiar e pessoal, com os seus comandos entregues aos seus liderados, de preferência, que se sustentam como vaquinhas de presépios.

Não servem para a igreja. Somente servem para agradar aos que desejam.

Não importa o que acontece de HERESIAS, nas propostas às escondidas, e sem a preocupação de uma melhor igreja. Visto o que está visível em nosso meio e anunciado por muitos insatisfeitos através da internet.

Poucos enxergam o que se pode ver com facilidade, bem à frente de nossos olhos.

Sinto, plena agonia pelo caminho tomado pelas Assembléias de Deus, quando assisto ao youtube.com e ninguém faz NADA. Os interesses funcionam como óculos escuros diante destes erros.

Quem decidirá acabar com as HERESIAS distribuídas nos eventos de Camboriú com os Gideões de Camboriú? Quem?

Quem se pronunciará contra as fantasiosas Marchas para Jesus?

Há uma necessidade de seriedade eficaz para que com responsabilidade lideranças confusas e heréticas sejam eliminadas com a mostra real do que fazem e do que prejudicam nas igrejas.

A ética exigida, por vezes, dilacera a verdade, e os bons costumes, que são transformados por interesses do cotidiano secular às custas de verdadeiros bombardeios à verdade.

Os telhados em grande parte são de vidro. O medo é comum a uma grande maioria!

O Senhor seja contigo, nobre pastor,

O menor.

Pb Fernando disse...

A meu ver o grande problema das assembléias de Deus no que concerne a sucessão pastoral gira em torno do poder. Antigamente quando estava prestes a haver mudanças concernente a transição pastoral, nossos líderes convocavam os santos para jejuar e orar para que Deus os orientasse a tomarem a decisão correta. Hoje a coisa mudou, a maioria dos líderes Cristãos quando trata do assunto mudança a primeira pergunta que fazem é, quanto a igreja rende?
Infelizmente a enquete confirma minhas palavras. Que Deus tenha misericódia de nós!

Daladier Lima disse...

O que dizer, Pr. Geremias? A enquete demonstra uma visão que diverge do alto clero. O problema é estrutural, não muda tão cedo. Infelizmente. A CGADB, já falei sobre isso no meu blog, poderia traçar linhas de governança corporativa, mas padece do mesmo mal. Um dia a corda parte. Aí vamos tomar alguma providência. Está faltando humildade e desapego.

Pr. Claudiney Duarte disse...

Pr Geremias. A minha questão como pastor é inversa. Pastoreio a AD sUMIDOURO,RJ,mas por ser uma igreja pequena, não estamos ligados a nenhuma convenção. embora a igreja esteja com 77 anos e tenha recebido autonomia a quase 20 anos, por falta de preparar obreiros vive tendo problemas de sucessão. Encontro-me na ausência de alguém vocacionado para preparar para a sucessão. Não somos eternos e na nossa ausência quem assumirá? Esta falta de intercâmbio denominacional gera sobra de obreiros em determinadas igrejas e falta em outras.

Joabe disse...

Excelente artigo. Acho que deveria ser mais clara a forma que a administração eclesiástica deveria ser exercida. Em alguns locais, praticamente não há sucessão sem antes uma boa confusão.
Alguns exemplos : http://www.youtube.com/watch?v=0ZsVWzTXZl8

http://www.youtube.com/watch?v=D8KeqJupWAg

Pastor Flavio Senhorinho disse...

Caríssimo Pastor Geremias, hoje em dia está na "moda" ser humilde, lavar os pés etc e tal, ficaria muito bonito, se a liderança terminasse este conclave desarmados, lavassem os pés uns dos outros e para fechar com chave de ouro, seria exemplo do Papa Bento, e deixassem outro continuar o papado com uma visão mais humanitária!Pelo menos para aparecer que tudo vai bem!