terça-feira, 4 de agosto de 2009

Cristo, um educador contemporâneo


Considerações preliminares

O ministério terreno de Cristo teve por essência o ensino. Todos os seus atos – inclusive os milagres – não fugiram à regra. Onde quer que estivesse, ele tinha uma meta: ensinar as pessoas. As situações aparentemente mais corriqueiras serviam-lhe de instrumento para expor uma lição aos seus ouvintes. Jesus viveu movido por este propósito e empregou as estratégias certas para cumpri-lo.

Igualmente, a Igreja hoje exerce o ministério pedagógico. Essa é a sua prioridade. O complexo mundo pós-moderno impõe-lhe o dever de multiplicar as suas energias nessa direção e ter como foco, sobretudo, as crianças, pois é nos primeiros anos de vida que ocorre a estruturação psicológica do indivíduo.

Não desconhecemos o avanço da pedagogia, nem lhe tiramos o mérito de introduzir novas formas de pensar a educação para que os objetivos do ensino sejam alcançados. Mas estas são as grandes perguntas de nossa reflexão: os métodos de Jesus continuam válidos para a época atual ou perderam a sua eficácia? Se Cristo vivesse sua humanidade hoje como seria a sua forma de aproximação das pessoas? Se a pedagogia põe ao nosso dispor novas ferramentas para cumprir os objetivos do ensino, em que podemos aprender com os métodos de Jesus?

Um homem afinado com o seu tempo

Para que tenhamos uma visão clara sobre isso, precisamos primeiro descobrir como Jesus se relacionou com a sua época, envolvendo não só a questão religiosa, mas também a cultura e os aspectos sociais. Esta premissa é necessária para que não se tenha a idéia, pela leitura equivocada dos evangelhos, de que o Mestre tenha sido uma pessoa alienada do contexto em que viveu.

Não obstante Cristo ter nascido para cumprir os propósitos de Deus de implantar o Novo Concerto entre os homens, do qual seria o mediador através do próprio sacrifício vicário, sem nenhum vínculo formal com o judaísmo, a sua nacionalidade judaica não foi uma circunstância, mas uma necessidade espiritual, profética e teológica. Deus usou a nação de Israel para ser a depositária de sua revelação à humanidade. Portanto, o Salvador do mundo, enquanto homem, teria de vestir-se de judeu para cumprir os propósitos divinos.

Assim, Cristo foi em tudo uma pessoa afinada com o seu tempo. Ele viveu como judeu, cumpriu os ritos do Antigo Concerto, incorporou em sua prática diária os elementos básicos de sua cultura e fez uso das convenções sociais de então nos seus relacionamentos. É óbvio que confrontou os erros, condenou a hipocrisia religiosa, combateu o formalismo da fé, proclamou as boas novas do novo tempo que Ele próprio representava, mas sempre se utilizou de ferramentas judaicas para isso, inclusive na arte de ensinar ao povo.

Em suma, esta é a expressão que melhor resume como o Mestre se comportou em sua vida humana: um homem contemporâneo.

Um homem que conhecia as necessidades humanas

Outra peculiaridade de Jesus está na importância que dava aos relacionamentos. Ele não deixou de valorizar os momentos a sós com Deus, onde renovava as forças para os embates diários, mas ocupava grande parte de seu tempo em contatos com as multidões e as pessoas em particular. Ele o fazia porque conhecia as necessidades humanas. Esse era o foco de sua atenção. Essa era a prioridade do seu ensino.

Qualquer que fosse a forma de aproximação de alguém necessitado, ou da própria multidão, o Senhor conduzia o processo até chegar ao âmago do problema para então propor os caminhos para a mudança de curso e a restauração pessoal ou comunitária. Mas o ponto de partida nunca se constituía de um discurso vazio e sem levar em conta o que importava: a necessidade do próximo.

Em outras palavras, o ensino não pode ser superficial, nem apenas formal. É preciso considerar o que as pessoas necessitam e ponderar sobre como é possível levá-las a mudar a sua concepção e a pôr em prática os conceitos aprendidos para que façam sentido em sua vida e produzam aperfeiçoamento.

Isso implica em convivência, compartilhamento, aceitação do ser humano, capacidade de avaliar as reações alheias, interesse pelo que as outras pessoas vivem e sentem, e disposição para ser mais que um professor: tornar-se um verdadeiro pedagogo, segundo a etimologia do termo grego, um condutor de alguém ao verdadeiro aprendizado. Esse foi o sentimento que moveu o coração de Cristo em sua compaixão pelo homem.

Um homem que dominava os rescursos pedagógicos

Em vista do que acabamos de expor, Jesus sabia fazer uso dos recursos pedagógicos e os aplicava à luz das especificidades humanas. Ele não era um autômato que seguia a mesma rotina em todos os casos. Mas agia como um conhecedor dos problemas humanos.

Os diálogos do Mestre não se restringiam à mera ocupação do tempo, mas tinham objetivos bastante definidos; suas perguntas retóricas não eram para demonstrar conhecimento, mas instrumentos para chegar a um fim; suas parábolas não o tornavam um simples contador de histórias, mas levavam-no a estabelecer analogias consistentes; os seus simbolismos não ficavam no mundo abstrato, mas eram extraídos da linguagem do povo para que este o compreendesse – em qualquer situação o método era aplicado conforme o propósito.

Quando a circunstância exigia conduzir o processo pedagógico etapa por etapa, esse era o caminho; quando o confronto direto se impunha, esse era o método; quando a demonstração de atitude era mais forte do que as palavras, esse era o comportamento. Mesmo naquelas situações que envolviam a logística, o Senhor preocupou-se em criar condições para que seus ouvintes não tivessem nenhuma dificuldade que os impedissem de ser alcançados.

Portanto, quando se olha para a tríplice perspectiva do ministério terreno de Cristo – ensinar, pregar e curar – percebe-se com bastante precisão que Ele não perdia as oportunidades de cumprir os seus propósitos pedagógicos. Qualquer que fosse o contexto, nunca deixava de ser contemporâneo na forma de falar às pessoas em busca do fim desejado.

Um homem cujos métodos permanecem atuais

Após esta reflexão, chegamos então à nossa grande pergunta: permanecem ainda atuais os métodos empregados por Jesus? A resposta é positiva. À medida que a pedagogia avança, novos conceitos são incorporados, outros vão sendo aperfeiçoados. Não se discute, por exemplo, a importância da tecnologia para a educação. Entre o antigo flanelógrafo e um moderno data show a distância é muito grande. Ninguém, em sã consciência, abre mão do último recurso, se estiver disponível.

Todavia, se nos dermos ao gratificante trabalho de comparar conceitualmente os recursos da pedagogia moderna com os métodos empregados por Cristo, numa época em que as limitações físicas eram enormes e o sistema educacional não dispunha das mesmas facilidades de hoje, temos de convir que o Mestre sempre esteve na vanguarda. Não só o seu ensino continua atual – e jamais deixará de sê-lo – mas os seus métodos se constituem em excelente modelo para a nossa prática pedagógica.

Quando estudamos as várias correntes da pedagogia, descobrimos conflitos entre uma e outra escola. Mas há também nelas verdades que se complementam. Se cotejarmos essas verdades à luz dos métodos de Cristo, veremos por fim que o Senhor, para o nosso exemplo, “ousou” antecipá-las na realização do seu ministério pedagógico.

Conclusão

A conclusão se dá, portanto, em duas vertentes. Na primeira, somos levados a crer que temos muito a aprender com o modelo pedagógico de Cristo. Sem desconsiderar o que os especialistas de hoje nos apontam como tendências da educação, no seu aspecto positivo, nunca devemos abrir mão de compreender que o Senhor continua sendo o nosso modelo de melhor educador.

Na segunda, temos também de aceitar que se Jesus vivesse fisicamente entre os homens nos dias atuais, não se furtaria em estar na vanguarda da educação com o propósito de levar os seus ouvintes modernos a compreenderem cabalmente o seu ensino. Repita-se: Ele é o nosso exemplo, somos seus imitadores, exerçamos a nossa responsabilidade pedagógica em toda a sua plenitude.

8 comentários:

Daladier Lima disse...

Excelente texto como sempre. Que sejamos como o Mestre a ensinar algo a alguém. Parabéns!

Ricardo André disse...

Caro Geremias, em 1ª mão gostaria de parabenizar-lhe pelo tema, pois foi muito fiel na exposição dos fatos. O ato de ensinar dentro de um método pedagógico correto na igreja é muito abrangente. A pessoa "chamada" para este fim não pode restringir sua ação a um mero acompanhamento do funcionamento religioso, há muito o que fazer!
Dois elementos envolvidos no processo de ensino por si só garantem a relevância desse processo: 1º - "O que se ministra - a Palavra de Deus; a quem se ministra – homens e mulheres, criaturas de Deus; e para que se ministra – para expansão do Reino e glória de Deus."
2º - "Planejar é, de fato, definir o que queremos alcançar; verificar a que distância, na prática,estamos deste ideal e decidir o que se vai fazer para encurtar esta distância."
Infelizmente caro irmão, vemos muitos obreiros na igreja despreparados, ensinando o que a Bíblia não ensina e falando o que não se deve falar. se seguissemos a risca o exemplo do mestre teríamos muito mais sucesso, pois nele não acharemos falha. Novamente parabenizo-lhe pelo tema e que Deus lhe abençoe cada vez mais.

Que Deus nos abençoe!

www.irmaoricardo.blogspot.com

Juber Donizete Gonçalves disse...

Caro Pr. Geremias,

O ensino de Jesus em si e a sua forma de ensinar é algo que surpreende até hoje. Como disse os soldados que foram prendê-lo no templo e voltaram de mãos vazias para os líderes do Sinédrio: "Nunca ninguém falou como esse homem!". Parabéns pela postagem. Gostaria também de expressar meus sentimentos sobre o chamado ao descanso eterno do seu pai. Que Deus possa estar lhes dando o conforto através do Espírito Santo.

Abraço.

Felipe Inácio disse...

Pr. Geremias do Couto, bela postagem!
O pós-modernismo tem entrado em várias igrejas e tem desvirtuado aquelas características que formavam a Igreja.
Grande parte dos líderes, não se preocupam mais em ensinar o povo, antes, preferem algo "rápido", "fácil", e "prático", no entanto, como vimos em seu excelente texto, devemos aprender como Jesus, e desejar realmente ensinar o povo! Nossos líderes deve ter aquela preocupação que teve nosso Mestre, de que o povo entenda a Mensagem do Evangelho!
Parabéns pela postagem!


Soli deo gloria!!!


www.apologiaeespiritualidade.blogspot.com

Newton Carpintero, pr. disse...

Prezamado pr. Geremias do Couto,

A Paz do Senhor!

Excelente explanação que contém a dosagem correta, para se analisar os momentos da atual fase do ensino em sua necessária pedagogia unida ao espiritual, acumulando assim, a manifestação de maior responsabilidade dos educadores evangélicos, em conformidade com a condição técnica moderna, necessária e desafiadora à igreja.

Creio, que convivemos no momento com grandes expectativas de primordiar o ensino como a base necessária a formação do caráter do cristão, para o futuro tão desafiador, bem à nossa frente, e com a necessidade de líderes e educadores proficientes, e com total responsabilidade espiritual, ao dever concedido por Deus, aos pastores e mestres, em seus afazeres, que deveria ser parte total do seu cotidiano.

Importante, averiguarmos em que fase vivemos e como devemos conviver nesta geração, para que a igreja, confronte em breve, o impacto que causará a soberba formada pelos contrários ao Ensino Bíblico, em vários setores da sociedade.

A habilidade deve ser exercida pelos que se dedicam à necessidade espiritual da igreja, e não por quem é convidado para ocupar espaços, e muito menos transformar o Ensino Dominical, em um outro culto, até mesmo com ofertas à parte. Virou mania. O que fazer?

Virou mania informar quanto cada classe "faturou". É triste , mas é verdade. O Ensino ficou para segundo plano, sem falar na qualidade das Revistas de Escola Dominical. Tempo parado. Tempo perdido!

O Senhor seja contigo!

pr. Newton Carpintero
www.pastornewton.com

ALTAIR GERMANO, disse...

Durante o meu curso de pedagogia sempre afirmei que Jesus foi o maior educador de todos os tempos. Todas as grandes teorias pedagógicas podem ser observadas em seus métodos de ensino.

Nobre companheiro e pastor Geremias do Couto, parabéns pelo belo texto.

Abraços e paz do Senhor!

Matias Borba disse...

Como diria o grande Augusto Cury, embora que em uma análise mais voltada para o humano, tratando sobre a personalidade de Cristo, ele, Cristo, é o Mestre dos Mestres!

Muito bom este texto Pastor, Deus abençoe sempre!

Pr.Valdivan Nascimento disse...

Olá pr. Geremias

parabéns pelo seu blog, sou leitor, seguidor além de recomendá-lo no meu blog Para Onde Iremos Nós? - http://valdivannascimento.blogspot.com/

Se quiser pode segui-lo e recomend-á-lo também.
Um abraço!