quarta-feira, 9 de maio de 2007

A Bíblia ou os livros? (parte II)

Agradeço os comentários recebidos sobre o tema, que, sem dúvida, é extremamente relevante na atual conjuntura da Igreja.

É óbvio que vivemos num mundo em que as idéias circulam em quantidades cada vez maiores e de maneira bastante veloz, principalmente no espaço virtual. A democratização do conhecimento enseja essa efervescência e cria oportunidades para que cada um queira compartilhar um pouco daquilo que conhece.

Assim, este é um quadro irreversível. Sempre teremos novos livros, em número cada vez maior, à nossa disposição, inclusive no meio evangélico, que não foge à regra. Cada vez mais as editoras trarão à luz obras de toda espécie. É o resultado desta época. O campo do saber é tão amplo que o próprio rei Salomão, conhecido também por sua sabedoria ímpar, chegou a afirmar já no seu tempo: “Não há limite para fazer livros”, Ec 12.12.

Como então conciliar todos os lados da questão, sem que a Bíblia perca a sua primazia em nossas prioridades? Deixe-me dar aqui algumas sugestões. Nesta segunda parte, quero falar aos autores. Na terceira, dirigir-me-ei aos leitores e, na última, minha palavra de advertência será às editoras.

Quem escreve, no meio evangélico, não pode conduzir-se meramente por aquilo que dita o “mercado”. Nem sempre o “mercado” quer o que precisa, mas o que faz cócegas aos seus ouvidos. No entanto, o escritor deve estar atento ao que está sendo sinalizado para que descubra quais são, de fato, as verdadeiras necessidades do público e possa, assim, supri-las. Ele é como um profeta. Suas palavras precisam estar carregadas de significado para os que o lêem. Sua missão não é vender ilusões, nem simplesmente analgésica, que minora os efeitos, mas não combate as causas. Tente eliminar a dor, claro, mas não deixe de ir às raízes. É lá que precisa ser transformado.

O escritor evangélico não pode escrever por escrever. Ele não é uma máquina de produção em série, que lança no “mercado” um livro atrás do outro. O anterior nem bem acabou de ser “digerido” pelos leitores, enquanto outro já está a caminho, numa voracidade comercial sem fim. As grandes perguntas a delinearem o seu processo de trabalho devem ser: “Que propósito tenho eu com esta obra? Que fins ela alcançará? Que benefícios o público terá com a sua publicação? Estou escrevendo, realmente, alguma coisa que valha a pena ou é apenas mais um “monte de palha” sem valor algum?

O escritor evangélico não é, também, um intermediário de “novas verdades”, “novas revelações” ou especialista em especulação teológica. Infelizmente, o que tem causado mais estrago em nosso meio são essas aberrações apresentadas como se fossem as mais novas descobertas no campo da espiritualidade e da teologia. Quantas heresias, quantos modismos, quanto sensacionalismo têm feito mal à vinha do Senhor por causa de escritores inescrupulosos e meramente comerciais! O que importa, para eles, é quanto entrou no caixa!

O escritor evangélico precisa submeter tudo quanto escreve ao crivo das Escrituras. Ela será sempre o padrão. A verdade primeira e última. É seu dever calar-se onde ela se cala e falar apenas onde ela fala. Assim, cabe-lhe perguntar a si mesmo: O que estou escrevendo é coerente com o que a Bíblia ensina? Este pensamento aqui registrado é apenas suposição pessoal ou corresponde a uma verdade escriturística? Estejamos lembrados de que tudo quanto for suposição ou pressuposto, mesmo que tenha legitimidade e coerência, como linha de raciocínio, deve configurar-se exatamente como o é, e não como respaldado pela Palavra de Deus. Paulo escreveu: "Digo eu, não o Senhor".

É óbvio que não se está discutindo aqui a linguagem. A forma de escrever é dinâmica e obedece a algumas regras para que a obra seja atraente. O escritor evangélico pode ser fiel às Escrituras e, ao mesmo tempo, saber como expressar-se para que o seu texto tenha empatia com o público. Ser bíblico não é sinônimo de escrever mal.. Muitas obras de qualidade há esquecidas nas prateleiras por causa da linguagem pesada, truncada e nada atraente. Quem escreve, precisa saber como escrever para alcançar o seu público. Mas escrever bem não é, também, sinônimo de escrever qualquer coisa.

Ao final, convém, nesta segunda parte, repetir o rei Salomão, que não ficou apenas na frase: “Não há limite para fazer livros”, mas acrescentou: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos, porque este é o dever de todo o homem”, Ec 12.13. Moral da história: tudo quanto se escreve tem de produzir esse resultado.

Na terceira parte, falarei aos leitores.

8 comentários:

Carlos Roberto Silva, Pr. disse...

Olá Pastor Geremias!
A Paz do Senhor!
Estou muito feliz, pois a cada artigo seu e como diz o preclaro amigo, do grupo de blogueiros que estamos compartilhando, consigo vislumbrar um grupo de pensadores com os pés no chão e a cabeça abaixo das nuvens. Isto é coisa de homens de Deus. Parabéns pelo artigo em tela. Estou no aguardo da part III e IV. Continuo indicando os blogs participantes. Através do seu, conheci o do Pastor Ciro Sanches. Uma benção. Um grande abraço!
Carlos Roberto Silva, Pr. - AD Cubatão SP.

André Silva disse...

A paz do Senhor, pastor Geremias!
A questão levantada é muito ampla e nos leva sem querer a outras esferas no que concerne a produção, uma vez que esse artigo reflete a condição do escritor enquanto produtor de livros.
Infelizmente, observaram que o meio evangélico era o grande filão da vez e hoje comercializou-se o meio: as músicas de vitória e massagem de ego, as mensagens em DVD pré-fabricadas em consultórios psicológicos e recheadas de técnicas de oratória no jargão do receba, receba e por fim os livros também entraram nesse ritmo frenético, salvo excessões.
O senhor alguma vez já levou à púlpito esses questionamentos?
O escritor também é um formador de opinião!
Irei compartilhar esse texto na minha classe de Escola Dominical
Um grande abraço, que o Senhor Jesus continue o abençoando!
Irmão, André Silva - Carpina - PE

Eliseu Antonio Gomes disse...
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Eliseu Antonio Gomes disse...

Acho importante que dia após dia novos livros apareçam na praça. Mas é claro que os autores evangélicos devem se pautar dentro dos parâmetros da Palavra de Deus, e não só ir em direção às ondas dos modismos existentes.

Eu até entendo que os modismos podem servir de veículo para divulgação das Escrituras... Afirmo isso pensando na tática do apóstolo Paulo: " Fiz-me de tudo para com todos para de algum modo salvar alguns ( 1 Co. 9.22b).

Também lembro que uma só ótica espiritual pode se revelar de maneiras várias, de autor para autor, mesmo que cada um deles respeitem as verdades manisfestadas nas Escrituras Sagradas. Isto é, nossos queridos autores evangélicos escrevem partes de uma grande verdade.

O ser humano, mesmo cheio de boa vontade, muita dedicação e consagração, continuará sendo insignificante demais para penetrar a mente de Deus, inteiramente... Os projetos do Senhor são revelados aos homens aos poucos e essas revelações são distribuídas para muitos e de formas diferentes.

Vejam os Evangelhos, são quatro prismas de uma mesma história!

Edson Moreira disse...

A Paz do Senhor, Pastor Geremias,

Nota 10 para os teus comentários. Quanto ao presente artigo, só tenho a acrescentar que o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo já nos foi entregue por inteiro, e é por este Evangelho que vale a pena lutar. Certamente há muita boa literatura cristã, mas tem muita bobagem também. Há muitos falando da última novidade, eu fico com a Palavra que nos fala "de uma fé que uma vez foi dada aos santos".
Nós, pastores, temos muitas responsabilidades com o rebanho do Senhor. Estar atento a estes movimentos e alertar a igreja é uma delas.
Em Cristo,
Pastor Edson Moreira - AD Natal,RN.

Ciro Sanches Zibordi disse...

Caro pastor Geremias,

Billy Graham teria declarado, certa vez, que, se o tempo voltasse, ele se ocuparia muito mais da leitura bíblica do que de outros livros. Concordo com esse posicionamento. É como o que Jesus falou, referindo-se a outro assunto, é claro (Mt 23.23). Ou seja, não podemos fazer uma coisa em detrimento da outra, mas a ordem de prioridades é:

1o.) Bíblia.
2o.) Bons livros.
3o.) Revistas, etc.

Em Cristo,

Ciro Sanches Zibordi

Pastor Geremias do Couto disse...

Caro Ciro:

Em razão dessa falta de prioridade as heresias encontram espaço para fertilizar suas sementes nos corações distantes da Palavra. Como ensina o pastor Antonio Gilberto, prcisamos ler a Bíblia despidos de qualquer condicionamento que nos imponham a visão humana sobre o que Deus disse. A Palavra, e só ela, de guiar os nossos passos.

Obrigado,

cleitonhertz32 disse...

A paz do Senhor pastor. É uma honra lhe escrever. Fui seu aluno do Caped em 1997,realizado em Manaus.Estou feliz de ter encontrado este espaço para também participar com comentários relativos a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Parabés. Deus o abençoe.
Um grande abraço...