sábado, 5 de maio de 2007

A Bíblia ou os livros? (parte I)

Desfruto da companhia dos livros desde os verdes anos de minha juventude. Sou um leitor voraz desde aquela época, hoje mais seletivo, com certeza, ao mesmo tempo em que dediquei a eles grande parte de minha vida profissional como editor. Sem me esquecer, também, que tenho tido o privilégio de ser considerado um escritor. Valorizo sua importância como meio legítimo para adquirir conhecimentos e para a formação espiritual, moral e social do indivíduo. E estimulo a todos a desenvolverem o hábito da boa leitura.

Mas atualmente tenho duas graves preocupações: a primeira com o comercialismo no meio editorial evangélico, aonde a disputa mercadológica pelo “cliente” já chegou às raias do absurdo; a segunda, com a tendência bastante generalizada de se trazer a Bíblia para um plano inferior e se dar aos livros a primazia da Palavra de Deus. Ou seja, eles se tornam mais importantes do que as Escrituras.

Sei que para se veicular a mensagem cristã e alcançar as pessoas é preciso empregar todos os canais possíveis, entre eles a literatura. Louvo a Deus pela descoberta da imprensa, nos anos áureos da Reforma, que nos permitiu ter a Bíblia, hoje, em nosso próprio idioma. Não sou, por outro lado, ingênuo em afirmar que as coisas são feitas de graça. Há um custo para tudo. Papel, impressão, mão-de-obra, distribuição implicam em investimento. Acredito, também, que ninguém deve guardar para si o que recebeu de Deus. É legítimo e necessário compartilhar com os outros e receber o retorno financeiro daquilo que faz, pois, bem diz a Bíblia, “digno é o obreiro do seu salário”.

O que me espanta é a forma como se faz a “propaganda”, ou seja, a maneira comercial “agressiva” com que os “produtos” são empurrados goela abaixo do “consumidor” evangélico, sobretudo quando essa “publicidade” é feita na TV. Emprego esses termos de propósito, pois é assim que somos vistos, ainda que haja, é óbvio, exceções. Somos um imenso “mercado”, onde nos olham meramente como “consumidores” e o que nos oferecem são apenas “produtos”.

E nessa disputada “guerra” o livro mais recente é apresentado como se fosse a “ultima verdade”, o autor “fulano de tal” é incensado como a maior autoridade no assunto, a obra que acaba de ser lançada contém todas as respostas que você precisa, o manual que você acaba de ver é o mais completo sobre o tema. E a Bíblia, onde fica? O problema é que, em muitos casos, se adquire gato por lebre! Já vi pessoas se sentirem enganadas pela propaganda do livro que compraram!

A parte mais complicada, no entanto, é o lugar que a Bíblia passa a ocupar em nossas prioridades de leitura. Lemos tudo quanto se escreve sobre ela, ouvimos as mais diferentes opiniões a seu respeito, adotamos as mais diferentes linhas de interpretação, segundo este ou aquele autor consagrado, mas dela pouco ou nada nos ocupamos, a não ser para meras consultas ocasionais. Mesmo levando em conta a grande diversidade de “bíblias de estudo” à nossa disposição.

O que está errado em tudo isso? Como dirimir esses conflitos e conciliar todas as partes envolvidas na produção e distribuição de uma obra, sem que a visão comercial prevaleça, sendo apenas meio, e não fim? Qual deve ser o nosso papel em relação à escolha dos livros que devemos ler? E que importância temos dado às Escrituras em nossa vida pessoal?

Estas e outras questões serão comentadas na parte II deste artigo. Enquanto isso, quero ler os seus comentários.

12 comentários:

André Silva disse...

A paz do Senhor, Pastor Geremias.

Quero justificar minha ausência dos demais comentários, estive enfermo e só agora, graças a Deus, retorno às atividades.
Excelente lembete e um tapa sem mão nos leitores, bom tapa por sinal.
Na verdade, o senhor explicitou o que o comercialismo jamais fará, a música "gospel" também enveredou por esse caminho: deixar a Bíblia como segundo plano é uma estratégia mercadológica a olho nu, mas o que fez a Bíblia ser um livro respeitado e menos lido? Por que grandes autores dizem falar verdades sobre temas bíblicos, quando a verdade já está lá?
Bom, nasci num lar católico romano e aprendi, como a maioria dos meus colegas e alunos ainda hoje, que a Bíblia é um livro intocável, de difícil compreensão; muitas vezes via minha mãe deixá-lo aberto no Salmos 91 para o ladrão não entrar em casa ou no Salmos 23 para não faltar o pão. Cicatrizes da Contra - Reforma? Talvez.
O que se sabe, ao menos, é uma malícia dessa cultura da não leitura da Bíblia deixada por muitos pais e que hoje também encontrou brechas na igreja.
Se o senhor observar melhor a evolução de um culto, a igreja ficou tomada de conjuntos musicais, se um adolescente é alcançado por Cristo, ele é jogado diretamente dentro de um conjunto musical, o discipulado é um segundo plano, a escola dominical anda vazia, mas os ensaios musicais não, as caravanas para as comunidades musicais não, o que está havendo? Falta de leitura da Bíblia ou de ensinamento? Falta de leitura ou de prioridades?
Estou esperando o segundo texto, passei a ser seu leitor, mas tenho a Bíblia como livro de cabeceira, graça a Deus.
Em Salvador, no Congresso de Escola Dominical quero ter o privilégio de saudá-lo com a paz do Senhor!
Até à Próxima!
Irmão André Silva - Carpina - PE

André Couto disse...

Sugestões:

1- Todo livro evangélico deveria ser lançado com um "selo de qualidade". Este selo seria fornecido por uma equipe interdenominacional de teólogos, pesquisadores da área, homens e mulheres preparados para avaliar um livro evangélico. Tal selo garantiria ao leitor segurança de uma leitura confiável, sem heresias e especulações desnecessárias.

2- A propaganda é essencial para a venda de qualquer produto, seja ele um livro também. O que não está certo é o exagero em se mostrar esses produtos ditos "evangélicos" na televisão. Gasta-se, às vezes, um programa inteiro para divulgar os livros inéditos (cheios de poder e capaz de mudar a vida de alguém). Mentiras são pregadas para enganar o leitor (consumidor) e levá-lo ao telefone precipitadamente para comprar o livro "salvador".
Há bons livros, excelentes. Mas, nenhum é capaz de transformar o homem. Os livros não podem trazer algo novo que não está na Bíblia. A nossa fonte inesgotável é a Bíblia e nela encontramos refúgio e as respostas de Deus.

Carlos Roberto Silva, Pr - Cubatão - SP disse...

Olá Pastor Geremias!
A Paz do Senhor!
Boa pergunta sugere este artigo!
A preocupação é muito grande! A volúpia comercial é tamanha, que hoje o público evangélico fica sem saber o que comprar, tal é a força da propaganda. Desde jovem, sempre estive relacionado com a questão de literatura na Igreja, tanto administrando livrarias e por esse motivo, fazendo indicações ao povo. Na realidade a avalanche de publicações é tão grande que não dá mais tempo de fazermos uma análise mais criteriosa, antes de indicarmos as publicações. Tenho certa desconfiança, quando começo a ver muitos livros com assuntos semelhantes, ou seja, assuntos que estão na moda, como é o caso das músicas gospel, que de tempo em tempo a moda é: anjos, fogo, batalhas, etc...
Tenho a imprensão que são publicações encomendadas, de acordo com a necessidade do mercado, de tal modo que as editoras não fiquem de fora do que está vendendo. Acho isto muito perigoso para a Igreja, pois não vivemos de massificação de mídia e sim da orientação do Espírito Santo. Mesmo as Bíblias de Estudo, que são oportunas e muito úteis, a cada dia surge uma diferente e para cada gosto. É necessário ficarmos atentos. Sua contribuição através do Blog, com sua experiência na área editorial nos é de grande importância, no entanto, estas são as minhas preocupações sôbre o assunto. Vamos aguardar a parte II.
Parabéns e um grande abraço! Pastor Carlos Roberto - Cubatão- SP

Carlos Roberto Silva, Pr. disse...

Em tempo:
Ainda que o mercado editorial seja grande e as Editoras se aprimorem na publicação de livros, nada substituirá a leitura da Bíblia Sagrada, pois é simplesmente o LIVRO DOS LIVROS - A PALAVRA DE DEUS IMPRESSA. Carlos Roberto Silva, Pr. - Cubatão - SP

Anônimo disse...

Pr. Geremias a Paz do Senhor!
O tema abordado é de grande relevancia nos dias atuais quando observamos uma enchurrada de periféricos gospel seduzindo o cristão em detrimento á leitura da Bíblia, as ferramentas auxiliares para o cristão devem sempre apontar para raiz principal as Sagradas Escrituras, é ela a fonte transformadora e qualquer outra ferramenta como as literaturas não podem e não devem usurpar o lugar primordial da Palavra na vida do cristão.
Pr. Marcos Bazilio - AD CMC Teresopolis

Anônimo disse...

A CPAD também estaria envolvida nesse contexto consumista?

Anônimo disse...

Pr. Geremias,

Foi colocado um link do seu blog no blog www.comoviveremos.rg.com.br.
PAZ

Valmir

Pastor Geremias do Couto disse...

Caro anônimo:

Dou-me ao trabalho de lhe responder, apesar de o amado não identificar-se, para informar-lhe que eu trato de uma tese no meu texto, sem apontar para esta ou aquela editora. É algo que venho detectando, de modo geral, ao longo do tempo, que faz parte, também, dos meus próprios conflitos, pois, afinal, sou também um escritor. Sempre me pergunto: até onde estou exercendo um sacerdócio? Até onde vão os meus limites? Nesse sentido, o meu alerta é para todos os que atuamos nessa área.

Ciro Sanches Zibordi disse...

Nota 10 para o seu blog! Também já o incluí nas minhas indicações. Parabéns por conseguir ser tão claro em suas argumentações. A partir de agora, serei um leitor assíduo de "Manhã com a Bíblia". Um abraço!

Eliseu Antonio Gomes disse...

Existem livros que nada tem a ver com a Bíblia Sagrada que, realmente, só levam o nome de evangélicos.

Sem citar nomes, existe um na praça que surgiu como "revelação" do inferno. Mas a autora apresenta Lucifer, lá, apenas como um ser torturador, castigando as almas sem ser castigado.

Entendo que o inferno foi feito para castigar o Satanás e seus seguidores -anjos e seres humanos.

Por causa disso acho que é preciso ter a Bíblia Sagrada como a leitura principal. É assim que adquirimos discernimento espiritual e com clareza, muita facilidade, saber as diferenças entre o certo e o errado.

Ciro Sanches Zibordi disse...

Caro pastor Geremias,

Muito oportuna essa sua abordagem. De fato, o consumismo se verifica em vários segmentos evangélicos. Preocupa-me essa grande quantidade de Bíblias de estudo que vêm sendo colocadas no mercado...

Há Bíblia que justificam estar no mercado, como Apologética, Pentecostal, de Referência Thompson. São obras extremamente úteis para um estudo bíblico.

Mas, sinceramente, qual a necessidade de um Bíblia denominada "Batalha Espiritual e Vitória Financeira"? Tem-se a impressão de que, para muitos crentes e pregadores da atualidade, a vida cristã se resume a isso: vitória contra o mal e prosperidade.

Não estariam tais cristãos abraçando o perigoso triunfalismo?

Em Cristo,

Ciro Sanches

osni de figueiredo disse...

por favor Pastor, sou seu admirador pela clareza de pensamentos que tem.
gostaria de submeter meu estudo ao seu crivo para me nortear melhor em minhas idéias.
por favor, como este espaço é pequeno, visite "br" se tiver tempo, ficarei honrado.