domingo, 18 de maio de 2014

Política: um assunto altamente espiritual e bíblico


Nesta segunda postagem procurarei mostrar as bases bíblicas pelas quais a igreja não pode furtar-se de tratar da política, não em sentido partidário, mas como instrumento que não se dissocia da vida comunitária e pessoal e que tem os seus fundamentos no próprio Deus, desde que olhada em seu significado básico como a arte de governar. É óbvio que a abordagem, aqui, não será aprofundada até para não tornar a leitura cansativa. O propósito e mostrar da forma mais simples possível que certa aversão existente ao tema é mais fruto da forma como o homem lida com a política, a partir de sua natureza caída, pecaminosa, do que da própria política em si.

Como defendido por Charles Colson e Nancy Pearcey em sua obra: "E agora, como viveremos?", a primeira grande comissão dada por Deus ao homem foi a de governar e fazer cultura. A de governo aparece no primeiro capítulo de Gênesis, onde a expressão "sujeitai-a" (v. 28), referindo-se à Terra, não quer dizer outra coisa, senão administrá-la, governá-la, tornar-se responsável por cuidar do lugar que seria a sua habitação. Uma espécie de mordomo sobre a terra criada. A que se refere à cultura, aparece no capítulo dois (vv. 19,20), quando Deus transfere a Adão a responsabilidade de dar nomes a todos os animais, tarefa que envolvia inteligência, capacidade e domínio de conhecimento.

Olhada sob essa perspectiva, a política nada mais é do que cumprir este propósito estabelecido por Deus logo no início da existência humana. Claro está que estamos falando de um tempo antes da Queda, que interferiu de forma nociva na forma como o homem, posteriormente, passou a exercer o governo. Mas ainda assim no pacto de Deus com Noé (Gênesis 9), após o dilúvio, estava também implícita a ideia de administrar ou governar. Em outras palavras, Deus não tinha como propósito a anarquia, a casa desarrumada e largada às traças, mas que ela fosse cuidada e bem administrada, embora, agora, houvesse a interferência direta dos efeitos do pecado nas maquinações humanas.

O mesmo princípio aparece em Romanos 13, onde Paulo aponta a autoridade como instituída por Deus para o bem da sociedade. Isso não é nada mais nada menos do que política. Digamos que o contexto não favorecesse nenhuma defesa nesse sentido pela simples razão de o Cristianismo ter começado a sofrer duras perseguições naquele período. Se fosse influenciado pelo ambiente, Paulo poderia usar subterfúgios para negar a autoridade como instituída por Deus, já que, de forma injusta, os cristãos sofriam pela má ação dos governantes de Roma. Mas ele não deixou de reconhecer que, como instituição, a autoridade era uma espécie de freio para o mal e para organizar a vida em comum.

O próprio Jesus, ao responder aos fariseus que lhe inquiriam sobre os impostos pagos pelos judeus a Roma, vaticinou a política de forma indireta como algo indispensável para a vida em sociedade. O seu primeiro ato foi lhes pedir uma moeda. Com isto demonstrou que havia um meio circulante para as transações comerciais determinado por algum poder. O seu segundo passo foi perguntar de quem era a esfíngie que aparecia do outro lado do valor de face. Era de César. Quis ele dizer que era sob essa autoridade que eles estavam vivendo. Por fim, parafraseando, concluiu: "Cumpram os seus deveres como cidadãos sob o domínio de Roma e não deixem também de cumprir os seus deveres para com Deus". Ou como na paráfrase de Eugene Peterson: "Deem a César o que lhe pertence e a Deus o que lhe é devido", Lucas 20.25.

Nestas poucas palavras procurei mostrar que não podemos olhar a política como algo essencialmente mau. Como a arte de governar, ela foi instituída pelo próprio Deus. O que a torna nociva é o mau uso que se faz dela decorrente da natureza caída do homem. Mas isso não nos pode levar a estigmatizá-la. Mesmo após a Queda, ela foi o instrumento para tentar pôr ordem na vida em comum, como vemos, inclusive, na própria legislação dada por Deus a Israel. Portanto, política é um assunto altamente espiritual e bíblico, que precisa ser tratado com coerência e seriedade para que formemos bons cidadãos para o mundo até que o Reino de Deus se manifeste em plenitude.

Na próxima postagem, falarei sobre a relação do cristão com a política e o que se espera daqueles que se sentem vocacionados para exercê-la, seja em cargos eletivos, seja em outras funções, que, embora não dependam do voto, implicam em fazer política porque têm a ver com a vida em comum na sociedade.

11 comentários:

Georges disse...

Uma exposição brilhante que não necessita de mais comentários. A não ser talvez que o desconhecimento desses conceitos é leve - talvez - ao mau entendimento do que significa a Ciência Política, não obstante os maus exemplos de políticos e suas politicagens (no sentido depreciativo de ambos os termos). Aguardarei os próximos artigos.

Tadeu de Araújo disse...

Pastor Geremias, graça e paz!

A Política, como Ciência, é "a arte de bem viver em comunidade". Essa, todavia, é por demais fantástica.
A mesma, entretanto, do ponto de vista partidário, somente não está tendo uma falta: a de ar!
Assim dizemos, pelos péssimos exemplos da grande maioria dos políticos, que recebeu procuração para representar a população, mas os mesmos apenas representam seus interesses e de seus apaniguados.
Incluam-se aos maus representantes, evangélicos, irmãos nossos de denominações diversas.
Em Provérbios 29.2 se nos diz:"Quando os justos governam, alegra-se o povo....
Prova disso foram os governos de José,no Egito; Neemias, na terra de judá; e Daniel, sobre toda a província da Babilônia.
Aliás, os mencionados personagens bíblicos eram modelos, e não maus exemplos, como hoje em dia é a regra.
Quisera o Altíssimo que tenhamos representantes nossos, tanto no Poder Executivo quanto no Legislativo, no entanto, sinceramente, vemos com reservas as indicações de ministros do Evangelho.
No entanto, longe de querermos generalizar, pois de vez em quando, surgem raríssimas exceções entre aqueles que têm escandalizado o meio evangélico.
Que o Homem das mãos furadas, pela sua misericórdia, continue nos iluminando.

Em Cristo,

Tadeu de Araújo



Rivadávia disse...

Filosoficamente, muito boa as observações do nobre Pastor, ainda mais sendo um especialista no uso das palavras. No entanto, nessa primeira parte é bom ressaltar que:

1. Depois de caídos ou não, hoje, não se faz política sem partido, portanto, é extremamente partidária, a arte de governar, como bem descreveu o excelente jornalista. Até para ter o direito de uso da tribuna é preciso haver acordos partidários.
2. A independência filosófica, de crença, ou até mesmo de postura ética não coadunam com as práticas de governo aplicadas às duas Casas, em Brasília, ou até a Casa Estadual e a Municipal, em nosso País.
3. Nenhum candidato, sem exceção, é postulante ou nutri esse desejo, na vã inocência de que fará o seu trabalho independente do partido, ou grupo que lhe ajudou a eleger-se.
4. Se dentro das instituições eclesiásticas, vemos o que vemos, os acordos são difíceis, imaginem na política desse País?! Tudo hoje são os interesses e principalmente pela mídia, recursos e posições de destaques.
5. Se a arte de governar, numa função pastoral, nos dias hodiernos têm sido de muitas dificuldades, e numa boa maioria, sem sucesso, o que vão fazer lá (na política) esses mesmos?
6. Que Deus ilumine esses corações, numa boa reflexão de oração e meditação para que frustrações futuras não os retirem, da excelente escolha anterior.

Rivadávia Corrêa Jr.
Rua Maria Ramos Lima, 72, Ap.05; Bl.01, Serraria
CEP 57048-360 Maceió Alagoas
rivacoju@gmail.com

Newton Carpintero, pr. e servo. disse...

Caro pr. Geremias do Couto,

Paz amado!

Direta e clara palavra nesta sua matéria que induz à responsabilidade necessária aos políticos que se desviaram dos seus propósitos administrativos.

A compreensão sobre os cargos públicos tornou-se cega e destituída de coerência lógica, nos meandros da política explorada e enferma, esta formalizada no Brasil de forma compulsiva ao roubo constante, e à depredação da moral de uma sociedade, já bastante enlameada pelos inescrupulosos guardiães dos seus próprios bolsos.

Há, creio eu, com um certo e descuidado otimismo, na possibilidade de mudanças na moral política do Brasil.

Onde estão os homens que se submeterão às armadilhas da política com o conhecimento e a capacidade de não atenderem aos caprichos dos carrascos da sociedade(I.N.T.E.R.R.O.G.A.C.Ã.O.).

O Senhor seja contigo, nobre pastor,

O menor

VOLTEMOS ÀS RAÍZES disse...

Na época em que Jesus vivia na terra, havia grande agitação política. Na tensa situação, o sentimento nacionalista estava vivo e povo sonhava com uma coalizão povo-farizeu-saduceu contra Roma, a opressora dos povos. Em tais circunstâncias, não é de estranhar que o povo esperasse um posicionamento de Jesus no tocante àquela situação calamitosa, ou o seu apoio, quer ao partido nacional, com tendência patriótica e religiosa, quer ao oponente, o partido romano. Em Certa ocasião, representantes dos dois partidos trataram obter uma opinião política de Jesus, valendo-se de uma maliciosa pergunta com já foi citado: “é lícito pagar tributo a César ou não?” Constatamos pela resposta de Jesus que Ele nada tinha a declarar a respeito da política da época. Mostrando-lhes a moeda destinada ao pagamento do tributo imperial, Jesus perguntou: “de quem é esta efígie e inscrição? responderam: “de César”. Jesus disse-lhes: “daí a Cesar o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Isso mostra Uma importante atitude de Jesus: sua imparcialidade política. Ele se recusou a tomar posição a respeito da questão política porque o Reino do Céu não é organizado como reino político. Na verdade, Jesus estava ratificando, de forma definitiva, a separação entre a igreja e a política.

Pastor Geremias Couto disse...

Caro Rivadávis:

Os seus pontos serão respondidos na terceira postagem.

Abraços!

Pastor Geremias Couto disse...

Caro voltemos às raízes:

Creio que o quinto parágrafo da postagem faz uma exegese mais adequada ao texto que o preclaro menciona.

Abraços!

VOLTEMOS ÀS RAÍZES disse...

Aqueles que defendem a idéia de crentes se engajarem na política dizem: “a igreja precisa de representantes evangélicos no poder para melhorar a condição do país”. Esse é um engano crasso. Querer atribuir a função da igreja a um parlamentar crente é desconhecer a missão da igreja de Cristo. A igreja tem de influenciar o Brasil e o mundo, e isto não se fará através de leis, mas através da genuína pregação do Evangelho. Querer fazer leis com princípios cristãos objetivando melhorar as condições morais e éticas do país é reconhecer a ineficácia da igreja e banalizar o poder do Evangelho. Em Atos 17:6, lemos “estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui”. A igreja primitiva transformou o mundo não pelo engajamento político, mas pregando Cristo crucificado e ressuscitado. Não precisamos de um vereador evangélico para pregar o Evangelho, nem de um deputado, nem de um senador. Estado é Estado, igreja é igreja. O problema do mundo não é político, é pecado. Não será um político que trará a bem-aventurança, mas o colocar-se sob o controle de Cristo. A Bíblia diz: “feliz a nação cujo Deus é o Senhor” e não diz “feliz a nação cujo governante é crente”.

No livro “On the Road to civilization, a world history”, o historiador J. Sigman relata: “o primitivo cristianismo foi pouco entendido e foi considerado com pouco favor pelos que governavam o mundo pagão; os cristãos não aceitavam ocupar cargos políticos”. O historiador Augusto Neander no seu livro “The history of the Christian religion and church during the first centuries, relata: “os cristãos se mantinham alheios e separados do Estado como raça sacerdotal e espiritual, e o cristianismo influenciava a vida civil apenas desse modo”.



VOLTEMOS ÀS RAÍZES disse...

Devo salientar que a lealdade última do crente é para com Deus e Sua Palavra e não a um partido político. O crente não é da direita nem da esquerda nem do centro. É de cima. Seus valores são espirituais e celestiais. Os princípios do Reino Celestial são os que devem subordinar a vida do crente e não os estatutos e diretrizes de um partido político.
Nosso norte são os valores da Palavra de Deus. O crente deve dizer como Lutero: "Minha consciência é cativa da Palavra de Deus". O império romano estava corrompido politicamente, mas Jesus nunca mencionou esse fato. Ele nunca mencionou a maldade do governador Herodes. Ele repreendeu os líderes religiosos por heresias e ofereceu o Evangelho aos pecadores. Nunca Jesus sugeriu que se transformasse a sociedade. A igreja não existe para reformar politicamente a sociedade, existe, sim, para amar e servir a Deus e para levar os ímpios deste mundo a Cristo!

Pastor Geremias Couto disse...

Caro Voltemos às raízes:

Sugiro-lhe aguardar a terceira postagem da série. Ela elucida algumas de suas questões. Mas de antemão nenhuma das duas já publicadas defende o engajamento da igreja com a política. Ambas defendem a não alienação, com postulados bíblicos, e o preparo dos cristãos para que exerçam a plena cidadania.

Abraços!

Pastor Geremias Couto disse...

Volto a insistir, caro "Voltemos às raízes" que aguarde a terceira e, provavelmente, a quarta postagem. Em razão disso, os seus dois últimos comentários não serão publicados.