segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Pastor e poeta evangélico, 25 anos antes de morrer, escreve com serenidade sobre a sua própria morte



Joanyr de Oliveira e João Tomaz Parreira, um brasileiro,
outro lusitano: dois luminares da poesia evangélica


Jefferson Magno Costa

Em uma manhã de sábado, dia 5 de dezembro de 2009, perdemos o sublime poeta evangélico Joanyr de Oliveira. No domingo, dia de descanso, Dia do Senhor, dia em que o pastor e poeta completaria 76 anos de idade, seu corpo foi sepultado no Cemitério Campo da Esperança, em Brasília.

Conheci Joanyr de Oliveira em 1978, quando ele esteve no templo sede da Assembleia de Deus em Natal, para lançar a Antologia da Nova Poesia Evangélica, livro que reunia poemas de poetas evangélicos brasileiros e portugueses, aos quais, durante vários anos, Joanyr havia orientado, doutrinado, corrigido, aconselhado, através da famosa seção de poesia da revista A Seara, Contato Poético.

Por eu ser um dos autores incluídos na antologia, o nosso líder maior, o saudoso pastor João Batista da Silva, para minha surpresa, chamou-me até o púlpito para que a igreja me conhecesse, para que eu recebesse um abraço do poeta Joanyr de Oliveira, e para que ele me presenteasse com um exemplar autografado do livro que me incluía como o único poeta norte-riograndense a figurar naquela antologia.
Para um rapaz desconhecido, inexpressivo, interiorano, cheio de sonhos, admiração e respeito pelos ícones da literatura evangélica brasileira (Joanyr de Oliveira era o nosso maior poeta), foi uma emoção única, inesquecível.

No ano seguinte, já transferido pela Marinha e morando no Rio de Janeiro, visitei o pastor Joanyr, que era Diretor de Publicações da Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Pouco mais de dois anos depois, recebi dele e do pastor Abraão de Almeida o convite para trabalhar como membro do Departamento de Jornalismo daquela editora.

Deus traçou minha trajetória de trabalho naquela Casa. Uma das honras que obtive foi substituir o pastor Joanyr de Oliveira na condição de comentarista da seção Contato Poético, da revista A Seara.

E quando, em fevereiro de 1985, entre muitas outras atividades jornalísticas, iniciei meus trabalhos de crítico e orientador de poesia, abri aquela seção comentando um poema de Joanyr de Oliveira, intitulado Despedida, talvez, no qual nosso saudoso amigo despedia-se poeticamente da vida. Ora, para nossa felicidade, só quase 25 anos depois é que o poema se tornou realidade plena na biografia do poeta.

Pagando hoje uma dívida de amigo, de admirador, de assíduo leitor de seus poemas, e prestando uma justíssima homenagem ao grande poeta que Joanyr de Oliveira foi e continua sendo todas as vezes em que um poema seu é lido, transcreverei a seguir seu poema Despedida, talvez, seguido do nosso comentário escrito naquela época:


DESPEDIDA, TALVEZ

Joanyr de Oliveira


Pelas portas de janeiro
Estendo antigos poemas
Que até parecem alheios
E estão repletos de luas...
Quem os dirá algum dia
Na placidez destas ruas?

Pelas portas de janeiro
Ao Universo eu espio
E afago. E me sinto pronto
Para esquiar as estrelas:
Anseio agora tocá-las
Porque cansado de vê-las...

Pelas portas de janeiro
Vislumbro as plagas do céu
E a luz que as aureola
Em coloridos sem fim,
Que nascem das mãos eternas
E passam também por mim.

Pelas portas de janeiro 
Olho, e me amadureço
Para apagar as palavras
Das pessoas mais queridas,
Trocando-as tranquilamente
Por celestes avenidas.

Pelas portas de janeiro
Minha alma voa tão leve
A beijar sóis e arcanjos
Que os olhos plenos de luz
E a concha azul de meus versos
Colhem a voz de Jesus.



Uma rápida identificação e análise dos recursos usados por Joanyr de Oliveira no poema Despedida, talvez, certamente nos levará a entender melhor alguns dos mecanismos acionados pelos poetas durante seu processo poético.

É certo que não faremos uma completa identificação dos elementos que compõem a parte técnica do poema de Joanyr de Oliveira, pois isto implicaria em termos que apresentar aqui uma ampla definição de métrica, rima e estrofação, além de fazermos um breve histórico das escolas literárias.
Por enquanto, o leitor deve saber que no poema Despedida, talvez, foram usados versos de sete sílabas (Verso é cada linha que compõe o poema; a reunião de vários versos forma uma estrofe. O poema de Joanyr de Oliveira é composto de cinco estrofes de seis versos; cinco sextilhas, portanto).

Quando analisávamos as linhas gerais deste poema, com o propósito de encontrar “a ponta do fio do novelo” que nos conduziria à sua essência, ao sentimento que desencadeou sua carga poética, lembramo-nos de um poema do genial poeta português Fernando Pessoa, onde ele, como Joanyr de Oliveira, também se despede de seus versos:



Da mais alta janela da minha casa
com um lenço branco digo adeus 
Aos meus versos que partem para a Humanidade. 
E não estou alegre nem triste. 
Esse é o destino dos versos. 
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos 
Porque não posso fazer o contrário (...).” 


Mas o sentimento que motiva o restante do poema do poeta português é bem diferente do sentimento que conduz Joanyr pelas portas de janeiro.

O grande poeta evangélico sente-se como um fruto maduro, pronto a partir para a eternidade, a esquiar as estrelas, e em condições de apagar as palavras/das pessoas mais queridas,/trocando-as tranquilamente/ por celestes avenidas/. Em suma: é a serenidade com que o tema da morte é encarado pelos evangélicos. Joanyr calca sua poesia nesta atitude tranquila.

Para os evangélicos, não existe reação de revolta e inaceitação diante de morte – comportamento muito comum por parte daqueles que não têm esperança de beijar sóis e arcanjos, e mergulhar na plenitude da luz de Cristo. Ninguém, que não tenha a esperança que temos, poderá entender porque consideramos o assunto morte com tanta serenidade.
O próprio poeta português Fernando Pessoa, diante da morte de Sá-Carneiro, seu amigo e confrade em poesia, deu provas de uma profunda incompreensão e amarga resignação: 



Nunca supus que isto que chamam morte
Tivesse qualquer espécie de sentido...
Cada um de nós, aqui aparecido,
Onde manda a lei certa e falsa sorte,

Tem só uma demora de passagem 
Entre um comboio e outro, entroncamento
Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento; 
Mas, seja como for, segue a viagem. 
(...)



O verso inicial de Joanyr, Pelas portas de janeiro, encima as demais estrofes de Despedida, talvez, e é responsável por essa sensação de saída (portas) e de arrebol e início (janeiro) que se forma em nosso espírito a partir do momento em que iniciamos a leitura.
     
Na primeira estrofe, os versos: Estendo antigos poemas/Que até parecem alheios/e estão repletos de luas/, representam a cristalização de uma obra (no caso de Joanyr, a soma de sua produção poética) que amadureceu e passou a pertencer mais às pessoas que a leem e assimilam do que ao próprio autor que a produziu (Lembremo-nos da pérola: quanto mais ela se desenvolve no interior da ostra, mais aumenta sua condição de “corpo estranho” no seio daquela que a está formando).

Lua é uma figura muito usada pelos poetas para representar um estado onírico (sonho). E quando a alma do poeta estiver voando leve pelas plagas do céu, será que seus versos continuarão sendo lidos na placidez destas ruas?

E estrofe por estrofe, o poeta vai-se predispondo a partir, a esquiar as estrelas, a aproximar-se delas e tocá-las porque cansado de vê-las. E já vislumbra as regiões do céu (plagas), e já sente-se tocado pela claridade que nasce das mãos eternas, e maduro o suficiente para apagar as palavras das pessoas mais queridas.
Sua alma, que voa leve e é beijada por sóis e arcanjos, banha-se de luz. E Joanyr encerra o poema com uma imagem que envolve cor (azul de meus versos, que lembra também o azul do céu) e som (voz de Jesus), que lembra a saudação divina: “Vinde, benditos de meu pai...” (Mateus 25.34).



Poetas que não conhecem ou conheceram Jesus não escrevem poemas assim. Manuel Bandeira, um dos maiores nomes da poesia brasileira de todos os tempos, desnuda sua alma sem esperança, sua vida transcorrida longe dAquele que poderia ter-lhe dado a plenitude existencial e a perspectiva da felicidade eterna, no seu poema

A MORTE ABSOLUTA:



Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.



Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.


Quem não tem Jesus como Redentor de sua alma, vê o seu destino, a transitoriedade da vida de forma pessimista, melancólica. Muitos esperam a morte como o poeta judeu-brasileiro Augusto Frederico Schmidt a esperou e expressou em um de seus poemas:


PAZ DOS TÚMULOS



Ó paz dos túmulos
Ó frio das tardes invernais nos cemitérios
Ó mármores gelados, rosas frias, noites de gelo, como vos espero!
Quando serei silêncio e frio apenas?
Quando serei apenas o íntimo da terra?
Quando, enfim, dormirei na paz – na álgida paz?
Ó vento que matais as rosas, vento frio!

Quando me levareis mudado em poeira?
Quando me levareis pelas ruas
Quando me levareis em mim mesmo mudado
Para o grande mar, o grande mar, o grande mar...?

Não posso deixar de comparar o poema que Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta brasileiro de todos os tempos, deixou como epitáfio, com o poema que o nosso Joanyr de Oliveira escreveu com a mesma finalidade.
     
Eis o epitáfio poético que Drummond escreveu para ele mesmo: 



O POETA ESCOLHE O SEU TÚMULO



Onde foi Tróia, 
Onde foi Helena,
onde a erva cresce,
onde te despi,

onde pastam coelhos 
a roer o tempo,
e um rio molha
roupas largadas,

onde houve , não 
há mais agora,
o ramo inclinado,

eu me sinto bem 
e aí me sepulto 
para sempre e um dia!



E eis o epitáfio poético que o poeta Joanyr de Oliveira escreveu para ele mesmo:



EPITÁFIO



Os casulos do silêncio
recolhem meu rosto,
meu canto e meu nome.
Entre arcanjos e estrelas,
minha essência navega
o esplendor dos milênios.
Doce é o sabor do infinito. 


Quão diferentes são os cristãos diante diante da morte! Quão diferentes foram os sentimentos que levaram o salmista a escrever estas palavras:


“O Senhor, tenho-o sempre à minha presença; estando ele à minha direita não serei abalado. Alegra-se, pois, o meu coração, e o meu espírito exulta; até o meu corpo repousará seguro. Pois não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção. Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra delícias perpetuamente”, Salmo 16.8,11.

Os que sentem, pensam e se posicionam na vida como Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt e Carlos Drummond de Andrade, tiveram o seu destino descrito pelo salmista:
“Como ovelhas são postos na sepultura; a morte é o seu pastor; eles descem diretamente para a cova, onde a sua formosura se consome; a sepultura é o lugar onde habitam”, Sl 49.14.
Porém, os que têm a fé que norteou a vida e conduziu para os mistérios da morte o poeta Joanyr de Oliveira, podem dizer, à semelhança do salmista: 

“Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tornará para si”, Salmo 49.15.

Para mudar um pouco o tom lúgubre e sepulcral desta postagem, e para satisfação dos leitores da bela e genuína poesia, publicarei como encerramento deste artigo, um dos poemas de Joanyr que eu mais gosto, o CANTARES VII, Filha do Rei:



Os teus passos, filha do Rei,
acariciam a face translúcida
do dia, os caminhos, os campos.



Teu andar se harmoniza
com o mar e os pássaros,
em louvações perfeitas.



O imaculado corpo, teu corpo,
Estende-se ao longo da paisagem,
bendizendo os ofícios do Sol.



Nas têmporas do monte,
teus olhos equilibram as águas
construídas em meigo azul.



Ramos ataviam as alturas.
A cabeça nívea, serena.
A cabeleira flutuante no tempo,



O esquio porte, de palmeira.
Espargem teus cachos na Terra
taças de unções indizíveis.



Tens aroma – que estremecem e inebriam
as várias colunas da noite,
porque beijas o soluço e a dor



e os transmudas em flores.
Bem-aventurados teus filhos,
ó vero amor de delícias!



Sobre as piscinas de Hesbom,
deslizando as saudades antigas,
mosto de romãs, perfumes.



Bem-aventuradas tuas sandálias
sob a altiva torre do Líbano,
e as frontes iluminadas do Eterno!


Post-Scriptum

Meu caro poeta pastor escritor editor pregador Jefferson Magno Costa (também sem vírgulas. Não são fragmentos. São unidade).

Agradeço-lhe a gentileza da autorização para reproduzir o seu ensaio sobre a poesia do saudoso Joanyr de Oliveira, com o devido credito e citada a fonte.

Pena que nem todos - embora possam ter lá os seus rasgos poéticos - conshigam valorizar a poesia como uma arte na qual, mais do que na prosa, se pode descer a profundidades, sem nunca chegar ao mais profundo - sempre há mais profundezas - que nos deixam embevecidos e surpresos pelo primor das pérolas encontradas.

Eu e você fomos "aprendizes" com (e de) Joanyr de Oliveira. Convivemos ao seu lado por algum tempo. Quantas vezes ele copidescou os nossos textos e nos ensinou a evitar os adjetivos, a estilizar, a frase, o período, a olhar as palavras com os olhos de artesão etc., etc. Tive a gratíssima honra de prefaciar uma de suas obras - Entre os Vivos e os Mortos - onde revelou também o seu pendor como romancista. Citei-o na minha obra: "A Transparência da Vida Cristã" pelo que representou para o meu aprendizado. Sem orgulho (mas orgulhoso) digo: tivemos um excelente mestre!

De tempos em tempos, revisito a prosa e os poemas do grande escritor. O seu nome é digno de constar em qualquer galeria dos grandes poetas brasileiros. Chegou a ser verbete da Delta Larousse. Joanyr de Oliveira foi o maior intelectual assembleiano. Ninguém ainda o superou.

Além disso, era homem comprometido com os valores do Reino, com as causas justas, com a solidariedade, com a ética, com a pureza da Igreja, com a dignidade do pastoreio, com os simples e contra toda sorte de opressão, inclusive religiosa. Talvez, por essas razões, o sistema muito tenha lutado para preteri-lo. Mas cumpriu a sua missão sem abrir mão de convicções, que, talvez, 25 anos antes de sua morte, lhe tenham inspirado a escrever este que foi um de seus grande poemas, Despedida, talvez, no qual o céu suplanta quaisquer outras perspectivas terrenas, muitas vezes frustrantes e impregnadas de perigosas sombras.

Joanyr de Oliveira termina a primeira estrofe com uma pergunta sobre como os seus poemas seriam lidos no futuro:

Quem os dirá algum dia
Na placidez destas ruas?

O tempo é inclemente e insiste em apagar o passado. Mas aqui e ali, "na placidez destas ruas" ainda ouviremos dezenas de vezes que "Deus espraia o mel da sua voz".

Geremias do Couto

2 comentários:

Mario Sérgio disse...

Excelente homenagem ao grande poeta evangélico Joanyr de Oliveira. É muito bom refletir sobre suas poesias e pensamentos.

Um grande abraço!

Gutierres Siqueira disse...

Maravilha!